O autor deste artigo poderia discorrer sobre as nuances e pormenores de The Dwarves, sobre suas particularidades e detalhes, ou até mesmo sobre seus pontos positivos e negativos, por horas a fio. No entanto, ater-se-á ao que realmente importa: o jogo cumpre muito bem seu papel no que tange a narrativa e trabalho sonoro. Mas peca bastante em todo resto.

3 - Selo de Prata

O jogo, que é baseado em uma série de livros de fantasia do autor alemão Markus Heitz, conta a história de Tungdil. Anão e órfão, foi criado por Lot-Ionan. Seu pai adotivo faz parte de uma poderosa ordem que protege o reino de Gildlegard, e o incumbe, certo dia, de uma tarefa aparentemente inofensiva.

Tal qual todas as aventuras, o início clichê abre brechas para uma história muito bem contada e intrincada que, infelizmente, perde parte de seu brilhantismo na execução de aspectos técnicos e de jogabilidade. Houvesse um capricho nestes pontos, certamente este seria destaque em um universo povoado por tantos jogos de fórmulas repetitivas.

Embarque conosco nesta jornada, e confira a nossa análise.

Não Somos os 7A (Lai-Ho!)

Tungdil, o protagonista, é um anão que possui interesses em áreas diversas daquelas que, normalmente, um anão se interessa. Ainda assim, mantém em seu sangue as habilidades de sua raça, na forja e nas palavras. Seu relacionamento com os outros personagens do jogo é bem construído (seja ele amigável ou hostil), e os outros integrantes do grupo não aparecem apenas para fazer número.

A mitologia do jogo é bastante fiel à obra original. Se você já a leu, vai perceber inúmeras referências
A mitologia do jogo é bastante fiel à obra original. Se você já a leu, vai perceber inúmeras referências

E o melhor elemento do jogo se mostra na narrativa. Não raro os jogadores se sentirão dentro do próprio livro de fantasias que inspirou o game. Ou mesmo evocando, do fundo de suas mentes, noites infindas de partidas de RPG de mesa (ao melhor estilo Dungeons & Dragons). A interação entre os personagens é muito bem escrita, e substancialmente agradável.

A narradora cumpre primorosamente seu papel. Intercalando entre diálogos, provendo uma imersão poucas vezes vistas em jogos deste estilo. A descrição dos acontecimentos e situações é soberba. E há de se comentar que o jogo é um sopro fresco de originalidade no quesito “personagens”. Não é comum um game onde o protagonista é um anão sem estereótipos de raça. Isso, embora suas motivações sejam, digamos, nada originais.

Ainda há o fato de que o jogo está localizado de forma competente ao nosso idioma (as dublagens permanecem originalmente em inglês e alemão). Assim, aqueles não familiarizados com outros dialetos não serão prejudicados, em nada, para acompanhar o desenrolar da história.

Um Mundo Vivo e em Movimento

Outro destaque do jogo são suas possibilidades de escolha para lidar com determinadas situações. Tal qual um digno RPG de mesa. Obviamente, ressalvadas as devidas proporções, o jogador tem a liberdade de escolher como resolver determinados problemas ou situações de tensão, baseado em escolhas predeterminadas. As árvores de opções são vastas, embora não alterem substancialmente o curso da história.

Essa prerrogativa dá ao jogador a autonomia para, por exemplo, intimidar um grupo de lenhadores a baixar suas armas, finalizando, assim, uma situação de tensão sem a necessidade de empunhar sua arma. Ou encara-los todos de uma vez, provocando medo e carnificina. Sem sombra de dúvidas, a desenvolvedora acertou em cheio neste quesito.

Mesmo podendo se mover apenas um espaço por vez, o jogador percebe que toda Gildlegard se move com ele.
Mesmo podendo se mover apenas um espaço por vez, o jogador percebe que toda Gildlegard se move com ele.

Além da narrativa muito bem estruturada, outro aspecto interessante do jogo é seu mundo. Ele está em constante movimento. Quando o grupo se movimenta no mapa, é possível observar que outros elementos também se movimentam. Dessa forma, eventos podem acontecer de forma “inesperada”. Por exemplo: o grupo pode interceptar um bando de orcs que, de outra forma, teriam massacrado um vilarejo.

Toda essa aleatoriedade também cobra seu preço. Os caçadores de troféus devem ficar atentos. Dos 31 troféus disponíveis (incluindo o cortejado troféu de platina), nada menos que 20 podem ser permanentemente perdidos, no caso de escolhas incorretas. Um grupo orc (como no exemplo acima) não interceptado. Uma briga provocada a toa. Mesmo um portão que não foi inspecionado antes de se iniciar uma conversa, ou ainda uma conversa que não foi iniciada corretamente.

Determinados troféus você só consegue cumprindo certos critérios. Fique atento!
Determinados troféus você só consegue cumprindo certos critérios. Fique atento!

Muito embora os personagens se pareçam com peças de madeira entalhadas, The Dwarves é inesperadamente violento. Não raro o jogador se encontrará presenciando decapitações, esfolamentos e desmembramentos, ao melhor estilo Game of Thrones.

O Delicioso Som do Metal Forjado

Como dito anteriormente, The Dwarves é baseado na série de livros de fantasia homônima (cujo título original é Die Zwerge). A desenvolvedora King Art Games, com a ajuda de uma campanha de financiamento coletivo, conseguiu dar vida às histórias narradas nas páginas ora comentadas. E, de fato, este é um ponto de destaque.

Entretanto, não existe uma boa história sem uma trilha sonora decente para acompanha-la. E The Dwarves também pode ser considerado um jogo com uma trilha sonora exemplar.

As músicas das batalhas impulsionam o sentimento de caos de desordem mostrados na tela. As belas notas ao redor do fogo, nos acampamentos, dão o ar calmo e tranquilo dos campos de Gildlegard. As vozes transmitem nuances das personalidades dos personagens como poucos outros exemplos. Os efeitos sonoros do jogo são imersivos e complementam muito bem o seu cenário.

No entanto, muito embora tais aspectos sejam bastante entusiasmantes, lamentavelmente o jogo peca em outros importantes. E estes não podem deixar de ser mencionados.

O Conceito de Caos e Desordem

The Dwarves é um jogo de RPG tático. Suas batalhas lembram bastante Warcraft, ou qualquer outro jogo de estratégia em tempo real. A desenvolvedora se refere ao sistema como “Crowd Combat System” (Sistema de Combate em Multidões). O grupo geralmente é atacado por um número bastante superior de inimigos. À sua disposição estão habilidades que precisam de PAs (Pontos de Ação) para serem usadas, e os personagens atacam automaticamente inimigos próximos com ataques corpo-a-corpo.

Na teoria, tal sistema cria uma necessidade de elaborar estratégias para vencer inimigos e superar desafios propostos pelo game. Na prática, sua execução careceu de cuidados, e o que se observa é uma completa mixórdia.

Há um problema sério em identificar quem é quem no meio de tantos elementos.
Há um problema sério em identificar quem é quem no meio de tantos elementos.

Já no início, o jogador é lançado no meio de dezenas de oponentes e precisa, basicamente sem qualquer orientação, romper as linhas inimigas para cumprir certos objetivos. Tal situação dá o tom da quase totalidade dos confrontos do jogo. Por causa da ação tão caótica, é complicado manter a atenção em todos.

Aliás, gerenciar o grupo consiste, basicamente, em trocar de personagens para verificar seu estado atual. A ação ainda pode ser pausada, e as habilidades a serem usadas escolhidas. Então, resume-se tudo e o caos volta a reinar. Os movimentos são bastante limitados, e ainda é necessário ser cuidadoso com o fogo amigo. Por diversas vezes, o autor deste artigo se viu tendo que reiniciar uma batalha por ter exterminado membros de seu grupo, que estavam no meio de um “mosh pit”.

Isso torna o “tático” um tanto desnecessário. Resolver as batalhas acaba sendo uma questão de força bruta, na maioria dos casos. E sendo um jogo focado em batalhas, este é um erro difícil de relevar. Mas este ainda não é o pior dos casos.

Por fim, a personalização é escassa. Algo inaceitável para jogos de RPG. Algumas habilidades especiais são muito parecidas entre si. Isso torna árdua a tarefa de diferenciar os personagens. Os equipamentos também não podem ser alterados. Os jogadores podem equipar apenas um item, como parte do loadout antes de cada confronto.

Uma Fissura que Precisa de Reparos

Fossem apenas estes os problemas apresentados, provavelmente a crítica ao jogo seria menos incisiva. Mas além dos problemas já apresentados, o jogador se depara, ainda, com um produto final que facilmente poderia ter sido lançado para PlayStation 3.

Graficamente falando, as texturas são limitadas. Há uma queda constante na taxa de quadros, especialmente em batalhas com muitos elementos na tela. Ao que parece, o jogo não foi otimizado para rodar no PS4. E por isso, distorções na tela, travamentos rápidos e um controle de personagem deficiente são uma constante. Até mesmo em uma determinada batalha, próximo ao fim do jogo, percebe-se falhas no trabalho sonoro.

Além dos problemas técnicos já citados, os loadings são muito demorados.
Além dos problemas técnicos já citados, os loadings são muito demorados.

A exploração fora do campo de batalha também é bastante limitada. O jogador se movimenta no mapa por nodos, e estes podem ter batalhas extras ou eventos a serem descobertos. Mas são bastante escassos. Os desafios são, ainda, ridículos de tão fáceis. O efeito disso é que o jogo possui cerca de 20 horas de gameplay. Algo irrisório perto de outros jogos de estilos similares, como Diablo III.

Como já dito acima, tem-se ainda o problema das batalhas do game. Os controles não são intuitivos. Não há muita ajuda por parte do jogo, e suas mecânicas são falhas. Por não poder controlar grupos, apenas um personagem por vez, os jogadores se verão em situações onde precisam escapar de um perigo iminente, mas o farão com extrema dificuldade.

A inteligência artificial dos companheiros é limitada e, por vezes, obtusa. Não raras foram as situações em que os inimigos precisaram ser levados até eles, para que estes adotassem alguma providência. Eles também possuem a irritante mania de permanecer parados em determinados pontos, o que frustra qualquer estratégia elaborada.

A inteligência artificial deficiente faz com que seus aliados acabem sendo mais prejudiciais que seus inimigos.
A inteligência artificial deficiente faz com que seus aliados acabem sendo mais prejudiciais que seus inimigos.

Percebe-se, por fim, que as cores do jogo são extremamente pálidas. O que não seria algo a se comentar. Mas trata-se de um jogo de RPG. Situado em um universo fantástico. A falta de cores acaba por tornar mais pálido um universo mágico que possui uma narrativa tão elaborada.

Considerações Finais

Definitivamente, The Dwarves é um jogo que tem potencial. Potencial este que precisa ser “polido e reforjado”, visto os inúmeros problemas encontrados. A empresa, inclusive, já trabalha em patches de correção e melhorias, afim de sanar as inconsistências verificadas.

Ressalta-se, no entanto, que os amantes deste estilo de jogo estão servidos com um game que possui uma excelente narrativa, uma trilha sonora sublime, e personagens tão carismáticos que dificilmente serão esquecidos.

Lamentavelmente, tais qualidades não são suficientes para, de uma forma ou de outra, ofuscar os defeitos que se apresentam. Uma promoção vem a calhar para recomendar este jogo.

AVALIAÇÃO FINAL
Gráficos
Jogabilidade
Enredo
Som
Diversão
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