Quando jogamos Assassin’s Creed Origins, ficamos impressionados com (quase) tudo e cravamos: é o melhor da série. Seu sucessor, Assassin’s Creed Odyssey, até deixa uma sensação parecida, só que tem um grande problema: pode ser visto como somente uma roupagem diferente para o jogo lançado no ano passado.
 
Nós testamos o game na E3 2018 e já havíamos ficado com essa impressão, e apesar de todas as (boas) novidades que Odyssey traz, ela continua. Mesmo depois de horas (muitas horas) de gameplay. Sabe aquele meme do Homem-Aranha olhando para “ele mesmo”? Pois é, é quase isso.

Mas ao mesmo tempo que isso acaba sendo um pouco decepcionante, por outro lado mostra que a Ubisoft aprendeu com o que deu certo em Origins, e até melhorou muita coisa para Odyssey. A nova aventura pela Grécia é a mais bonita e com a jogabilidade mais apurada da franquia.

“Uma mão lava a outra, e ambas lavam o rosto”

Os gregos antigos são sinônimos de conhecimento, e vários de seus ensinamentos são usados até hoje como ditos populares – no Brasil e no mundo.

Se uma mão lava a outra, e ambas lavam o rosto, Assassin’s Creed Odyssey une o útil ao agradável, pegando a base de um game bem sucedido, Origins, com novidades que justificam o lançamento de um novo título. Se, por um lado, a semelhança excessiva do jogo com seu antecessor incomoda, por outro ajuda.

Não só no desenvolvimento, que certamente pegou carona em muita coisa já preparada, como também para os jogadores, que já estavam acostumados com Origins e vão sentir uma facilidade maior no gameplay de Odyssey. Até mesmo o level design das cidades e as missões seguem os modelos do game anterior.

Barcos são elementos importantes do jogo.

A grande diferença é que trocamos o Egito Antigo pela Grécia Antiga, o que traz alguns detalhes modificados. Por exemplo, a importância dos barcos. O mapa tem muita água, muito mar, e por isso o sistema de batalhas navais foi incrementado. Agora, inclusive, o jogador tem até um barco pra chamar de seu, com uma tripulação e melhorias.

Outra mudança interessante no gameplay são as Batalhas de Conquistas, que trazem para Assassin’s Creed um modo parecido com a dinâmica de For Honor – só que sem aquele componente online, claro. São duelos entre Atenas e Esparta, em que o player escolhe um lado e tem que matar os inimigos do outro para conquistar um território.

Assassin's Creed Odyssey_5
Algumas partes se assemelham (um pouco) com For Honor.

Os Mercenários são outra adição bacana, porque tornam suas tarefas mais difíceis. O seu nível de “procurado”, no estilo GTA, vai subindo de acordo com suas ações, e vêm vários caras te caçar por conta disso, tornando cada missão ainda mais dinâmica – e, é claro, difícil.

Só que o grande diferencial de Assassin’s Creed Odyssey para o restante da franquia está mesmo nas escolhas. Pela primeira vez, o jogador tem liberdade ao ponto de ter dois protagonistas disponíveis para decidir qual comandar e diálogos com opções de respostas que alteram o gameplay e o enredo.

Enredo esse, aliás, que não é dos mais interessantes, porém também não decepciona. Está no nível de Origins – e o que se vive com Kassandra ou Alexios possui até alguns elementos parecidos com a história de Bayek, como vingança e família. É o suficiente, sim, para te manter conectado ao game e querer explorá-lo.

E por falar em explorar, Assassin’s Creed Odyssey também traz a opção de um modo com “menos ajuda” da máquina. No início do jogo, você escolhe se quer a experiência tradicional, com indicadores de onde cumprir tal objetivo, ou o modo “Explorar”, quando você tem que seguir pistas para achá-los. Obviamente, a segunda opção é melhor.

“Nada é permanente, salvo a mudança”

Ou seja, mesmo passando a impressão de que é apenas um Origins tunado, Assassin’s Creed Odyssey tem novidades que fazem com que ele se destaque. Não há dúvidas de que é, sim, um jogo recomendado, e o melhor trabalho da Ubisoft na franquia – seguindo bem a onda de seu antecessor.

Especialmente na parte gráfica, que merece um destaque à parte. O visual do jogo deixa você de queixo caído – especialmente em 4K no PlayStation 4 Pro. A Grécia Antiga está lindíssima, e não para por aí. Cutscenes têm personagens muito bem feitos (superiores a tudo que vimos em Origins), movimentos são reais e a imersão é de aplaudir.

Visual do jogo é impressionante.

A iluminação, a variação entre dia e noite, a vegetação, o mar, os barcos, é tudo feito exatamente no nível que esperamos de um título AAA a essa altura da geração. Tem, sem dúvidas, uma qualidade gráfica que pode ser comparada ao nível de Red Dead Redemption 2, por exemplo – que, aliás, é seu grande concorrente na categoria.

Temos também que elogiar a Ubisoft pela preocupação de sempre localizar os games, em sua totalidade, para o português do Brasil. Assassin’s Creed é mais um que conta com menus, legendas e áudio no nosso idioma. Algo que é quase obrigatório hoje em dia, e decepciona quando não está presente (anota aí, dona, Rockstar).

Infelizmente, há uma nota negativa na localização. Em várias legendas e detalhes do menu, quando você joga com Alexios, nota que estão se referindo ao personagem no feminino – como se fosse Kassandra. É um detalhe perto do ótimo trabalho, mas vale, assim como no caso dos bugs, citar.

Até porque, no fim das contas, Odyssey é Assassin’s Creed na sua essência. Pro bem e pro mal. Nos belos gráficos e nos bugs estranhos. Nas missões divertidas e sidequests repetitivas. No enredo bacana e nos acontecimentos previsíveis. Nas inovações para a jogabilidade e nas semelhanças de level design.

Jogo conta com ‘sistema de procurado’.

Sendo assim, fica a torcida para que, em um próximo Assassin’s Creed, a Ubisoft faça, realmente, algo mais diferenciado em termos de missões e ambientação. Não que seja ruim o modelo atual, pelo contrário, mas dois jogos, de tamanhos tão grandes, em um intervalo de somente um ano, acabaram fazendo com que ele ficasse meio saturado.

É algo semelhante ao que acontece com a franquia Far Cry. Por mais que os títulos sucessores de Far Cry 3 tenham seus méritos e sejam boas experiências, deixam a impressão que estão só surfando no sucesso do jogo, repetindo (quase) tudo dele – alterando somente o cenário e a história de background.

“Ninguém desce duas vezes o mesmo rio”

A frase acima é de Heráclito e é genial. Ninguém desce duas vezes o mesmo rio pois um rio nunca é o mesmo duas vezes – a água está sempre se movendo, renovando e tudo mais. E é isso o que esperamos de Assassin’s Creed. Odyssey pode até parecer o mesmo rio de Origins, mas não é.

Mudou uma marolinha aqui, outra ali, e é uma experiência justa e digna da franquia. Mas esperamos que ela não caminhe no rumo que estava até o ano passado. Por favor, Ubi, por melhores que Origins e Odyssey tenham sido, dá um tempinho. Dá uma olhadinha no que aconteceu com Tomb Raider, por exemplo.

Lara Croft teve agora um flop com Shadow of the Tomb Raider justamente por ser mais do mesmo. Assassin’s Creed mesmo, não muito tempo atrás, parecia uma série fadada ao fracasso, marcada por bugs inecraditáveis e insatisfação da comunidade. Longe de ser o caso agora, que os jogos são ótimos, mas vale o alerta.

Para resumir, se você jogou Assassin’s Creed Origins, vai gostar de Assassin’s Creed Odyssey. A qualidade do jogo ainda fala mais alto do que a repetição. E para quem não viveu as aventuras de Bayek, então, o novo título é mais recomendado ainda. Um belo exemplo de como um jogo de mundo aberto deve ser.

Mais do que isso, uma ode à série Assassin’s Creed. Pro bem e pro mal.

Avaliação
Geral
8.0