Você entende o espírito de Days Gone quando, em determinada parte do jogo, você está rodando para um evento muito importante da narrativa ao som de Soldiers Eyes. Os fãs de Sons of Anarchy reconhecerão imediatamente a canção. Ela fala sobre “voltar para casa”, “liberdade”, “luta” e “olhos de um soldado”.

Os “Olhos de um Soldado” quando ele retorna são diferentes. Eles enxergam as coisas de outras formas. Soldados quando voltam…na verdade não voltam. Eles ficam eternamente na campo de batalha. Até o nome do jogo é um pouquinho disso…”dias passados”.

Days Gone está intimamente ligado a cultura dos Motor Clubs. Estes, por sua vez, se popularizaram justamente com fim da Segunda Guerra Mundial. Havia uma espécie de necessidade em ser parte de algo. Os filhos da pátria quando regressavam às suas vidas “normais” não conseguiam se adaptar à rotina, afinal, suas experiências foram muito intensas e particulares. Só seus irmãos conseguiam entender. Daí a necessidade de um clube. Você pode até notar: estes clãs contam, geralmente, com insígnias, hierarquias e um senso de irmandade muito similar às Forças Armadas.

O novo jogo da Bend Studio é sobre isso: lealdade, código de honra, simbolismo e companheirismo.

Days Gone - Deacon
Jogo vence a desconfiança e entrega uma competente experiência.

Apenas um vagabundo

Deacon St. John é apenas um vagabundo – motociclista caçador de recompensas. Ele não quer ser um herói salvador da humanidade, só sobreviver a um mundo absolutamente cruel e impiedoso. E neste contexto, St. John vive o lema “fins justificam os meios”. É preciso fazer qualquer coisa para manter-se vivo.

O jogo se passa dois anos após um terrível e misterioso vírus infestar exponencialmente o mundo. Humanos e animais, quando infectados, perdem suas faculdades e passam a ter um comportamento agressivo.

E você certamente sabe: no fim do mundo, as coisas fogem completamente ao controle. Não existem leis ou ordem. Amigos viram inimigos, facções são criadas, não há governo ou instituição garantidora de regras básicas de convivência.

Mesmo sendo um cara durão, Deacon se recusa a deixar o passado no passado. Ele se tornou uma pessoa amarga, mas esperançosa. A narrativa é construída sobre estes pilares: esperança, resiliência, passado e companheirismo.

O motoqueiro se tornou um caçador de recompensas. Ao longo da jornada ele conhece acampamentos onde aceita tarefas em troca de algo. Passo a passo, o jogo vai entregando objetivos e construindo o relacionamento entre Dick e várias outras pessoas. Cada personagem importante conta com uma linha de história. Realizar missões aumenta a confiança dos locais, possibilitando o desbloqueio de armas, itens, melhorias, etc.

Days Gone - Acampamentos
Aumentar a confiança é importante para desbloqueio de itens.

As missões são bem diversificadas e variam de resgate de reféns, busca por suprimentos, liquidar com grupos de saqueadores, limpar áreas, perseguições e muito mais. St. John conta com uma habilidade – senso – de caçador em razão de sua vivência na área. Então ele consegue seguir rastros e localizar com facilidade pessoas ou evidências.

Ainda que não sejam missões tão amplas como as vistas em The Witcher 3: Wild Hunt, o jogo oferece uma boa cadência. Só acaba ficando um pouco repetitivo mais pro final da jornada, mas nada extenuante.

Days Gone - Deacon e seu irmão
Jogo repleto de histórias.

E é curioso como Days Gone se inspira em outros exclusivos. Você vai notar, claramente, um pouco da vibe de The Last of Us ao explorar os locais para coletar recursos. Até a movimentação do personagem se parece com a de Joel. Já a forma como o mapa é exibido e o desenrolar das missões remete a Horizon: Zero Dawn. Não é exatamente igual, mas lembra.

É um game muito competente no storytelling. Um acontecimento simples desencadeia uma série de episódios importantes, construindo de forma escalonada a narrativa. É daquele tipo de jogo onde você é motivado a prosseguir nas missões, pois um lance desperta várias coisas interessantes. Há sub-enredos dentro da linha principal. E tudo se interconecta natural e organicamente. A trama mostra um pouco do passado do motociclista, conecta com eventos recentes e projeta o plot futuro. Uma história poderosa, repleta de missões muito consistentes. É mais um single-player de peso no cardápio do PlayStation 4.

Days Gone - Mundo aberto
Jogo é bem grande.

Days Gone é grande, de verdade. Quando você imagina ser “os finalmente”, um conjunto de histórias novas aparece nos menus.

O fim, não é mesmo um fim. Após a conclusão da trama principal – mais de 30h – o jogo abre outras missões diretamente relacionadas. Similar a um end-game. E as histórias no pós-game são boas!

Days Gone: jogabilidade simples

É um jogo em terceira pessoa com muitos tiroteios. Nas missões você, geralmente, tem de enfrentar alguma ameaça com armas brancas ou de fogo. Você pode escolher o tipo de abordagem: furtiva, se esgueirando pelos arbustos ou sentar o dedo no gatilho. A escolha é sua, só não há muitos impactos no desenrolar das coisas.

A variação de armas é ótima. Você pode carregar até três opções de armas de fogo: um fuzil de assalto, arma pesada e uma arma de porte (pistola ou submetralhadoras). Conforme você conquista confiança dos acampamentos, mais opções de armamentos aparecem.

Ponto positivo para as alternativas de combate corpo a corpo. Há bastões de beisebol, tábuas, facões, machados e uma faca tática. Salvo a última, você pode melhora-las com outros itens. Ao concluir missões (ou investigando abrigos) você aprende, com receitas, técnicas para incrementar suas armas brancas.

Mas não espere encontrar muita inteligência nos inimigos. A maioria deles não flanqueia, não elabora estratégias ou “pensa antes de agir”. Os humanos são quase tão burros quanto os Frenéticos. Chega ser inacreditável um oponente humano vir para cima de você apenas com um pedaço de madeira, enquanto Deacon está armado até os dentes. Só aqueles treinados – Milícia – oferecem um pouco mais de dedicação.

O jogo conta com três árvores de habilidades. Você pode se concentrar em cada uma delas e moldar seu personagem de acordo com seu estilo de jogo preferido. Mas é bem importante investir tempo em todas.

Só há falta de um sistema de cobertura ao estilo de Uncharted – Deacon “não pega cover“, apenas se protege agachado nas barricadas – e a roda de seleção de itens, as vezes, pode não ser tão funcional, principalmente em momentos mais desesperadores.

Apesar de, no geral, a jogabilidade funcionar muito bem, durante os nossos testes vimos a ocorrência de alguns erros esquisitos. Em algumas ocasiões (três delas) o evento simplesmente não iniciava. Não aparecia o botão – quadrado – para você executar a ação – empurrar um carro ou “dar o pézinho” para um companheiro. Nestes casos foi necessário restaurar do último checkpoint.

Ponto positivo para o controle da moto. Funciona super bem. O veículo é muito manobrável, faz curvas com facilidade e útil para fugas.

A Drift, por sinal, é um dos elementos mais interessantes do game. É a personificação do seu espírito. Você precisa, mesmo, cuidar dela com muito carinho. Menosprezar seus consertos e a gestão do combustível é um passaporte para morte.

Days Gone - Combustível
Não fique sem combustível!

Na jornada você encontra sucata e pode usá-las, a qualquer momento, para reparar danos na menina e construir itens. Além disso, a todo instante, é bom ficar de olho no nível de gasolina. E acredite, ela bebe quase tanto um Opala 6cc. Se você ficar na “pane seca”…meu amigo, você está muito lascado.

Mas você se acostuma rápido com a ideia. Sempre ao começar uma missão, de forma automática, você já faz um planejamento para passar em locais onde, provavelmente, encontrará galões de combustível ou em postos de abastecimento. É até divertido.

E só há a “sua moto”. Isso quer dizer que você não pode simplesmente pegar outra. Na verdade você até pode…mas terá de voltar para buscar a sua. Ela sempre fica marcada no mapa. Em outras palavras, o jogo não troca. E claro, não é como Red Dead Redemption 2. Você não assobia e a moto vem até você. Não se distancie tanto…ou terá de andar muito.

Sendo sua, você pode personaliza-la de várias maneiras. Melhorar suas partes mecânicas e incrementar o visual. A variedade agrada. Funciona no mesmo esquema: conquiste confiança dos acampamentos para desbloquear níveis mais altos de equipamentos.

Você nunca esta a salvo

Ótima narrativa, jogabilidade bacana e uma “alma”. Mas Days Gone impressiona mesmo é nos seus ambientes.

O slogan oficial é algo como “um mundo que não te dará trégua”. Acredite, é verdade este bilhete.

A ambientação é espetacular. Há vales, montanhas geladas, planícies, pântanos, florestas densas, regiões mais áridas. Em todos os lugares você nota a desolação com carros abandonados, enforcados, vilarejos onde as pessoas tiveram de sair às pressas ou sequer tiveram tempo e até túneis escuros. Corpos estão por todos os lados. Você se sente mesmo no fim dos tempos.

Days Gone - Ambientação
Ambientação é espetacular.

O visual também contribui muito para esta sensação. No PS4 padrão o jogo está muito bonito, com destaque para as variações climáticas. Você vai ficar admirando as chuvas torrenciais e suas trovejadas, nevascas e o pôr do sol. Tudo isso influência no jogo. Controlar a moto em ambientes úmidos ou na neve é mais arriscado.

Andar em uma severa tempestade é assustador, mas tem suas vantagens. A audição dos Frenéticos não é tão apurada com tantos raios. O próprio som da chuva ajuda camuflar seus passos.

E você nunca está à salvo no enorme mundo aberto de Days Gone. Além dos Freakers, há os Quebradores – infectados mais fortes -, Atalaias – um inimigo gritador horripilante capaz de derrubar Deacon da moto -, animais – ursos, pumas e lobos, cervos, corvos – e uma mutação bem mais evoluída dos Freakers. Além destes, os humanos e os Ripers, uma espécie de cultistas de Freakers, também dão trabalho.

Rodar durante o dia é menos perigoso. Os inimigos, apesar de mais fortes, aparecem em menor número. A noite é um belíssimo convite à morte. E você vai, em muitas situações inusitadas.

Você pode acabar de “limpar um acampamento de saqueadores” e…surgir uma matilha. Ou estar abastecendo tranquilamente sua motoca quando um grupo de Freakers corre em sua direção, forçando você a fugir. Experimente ligar os geradores da NERO – uma instituição de pesquisa – e veja dezenas de aberrações surgirem ferozmente. Colha plantas para criar kits medicinais e seja suplantado por um urso.

Ou quem sabe…tudo isso ao mesmo tempo? Sim, pode acontecer. É impressionante como é perigoso sobreviver.

Mas nada se compara com às hordas.

No jogo há um total de 40 delas espalhadas pelo mapa. Os tamanhos variam de 50 a 500 Freakers. São as maiores e mais belas ameaças do jogo. Não há como não se espantar com o enxame de Frenéticos.

Days Gone - Hordas
Encontrar uma horda (grande ou pequena) é assustador.

Elas saem das cavernas a noite para alimentar, beber água e ficam andando no mapa. Há algumas em pontos fixos, outras em movimento. Dar de frente com uma dessas é, ao mesmo tempo, assustador e divertido.

Aqui consiste o maior desafio do jogo. Aniquilar as hordas.

Você chega até o local, estuda cuidadosamente a topografia, se planeja com bastante antecedência para criar as bombas remotas, coquetéis e granadas, traça uma rota…e na execução sai tudo errado.

Elas são tão avassaladoras ao ponto de você simplesmente se desesperar e “perder” sua estratégia. São rápidas e fulminantes. Uma vez pego, não há uma mínima chance de sair vivo.

Mas, com algumas tentativas, você consegue segurar os nervos e seguir o plano. Acredite, é mesmo imprescindível um conjunto de estratégias para vencê-las. É necessário aumentar suas barras de energia e resistência até o máximo possível, afinal, correr e rolar as consomem. Como as hordas são muito rápidas, se você não tiver um kit de recuperação, terá pouca sorte.

Lembra daquele primeiro trailer, onde Deacon chega até uma serralheria e tem de lidar com uma horda bem parecida com o filme World War Z? É daquele jeito mesmo!

Quando, enfim, você dispara o último tiro contra o Freaker restante, rola até um suspiro de alívio.

Ornamentando tudo isso está a sonoplastia. Na voraz luta contra os mutantes, o jogo acelera os batimentos com músicas empolgantes e bem escolhidas. Por sinal, o game como um todo conta com belíssimas escolhas de canções.

Falta só lapidar 

Days Gone é um grande jogo. Você deve ter entendido isso. Só precisa de alguns retoques em sua performance, principalmente no PS4 comum. O game sofre com alguns bugs – já relatados – e problemas de desempenho. Em alguns momentos, geralmente no mundo aberto, ele engasga um pouco, às vezes as texturas não carregam completamente em cenas de corte, falas repetidas no rádio – um personagem chega a repetir a mesma mensagem mais de uma vez – e as telas de carregamento são grandes.

O patch 1.03 (17 GB no PS4 e 21 GB no PS4 Pro) já consertou muito disso, mas ainda são necessários ajustes finos para o título ficar redondinho.

Days Gone - Visual
Visual é incrível.

Glória à Deacon St. John de Days Gone

Days Gone se sustenta em três pontos: narrativa single-player, com um baita personagem, carismático, inteligente, muito bem construído que pode vir a se tornar o próximo “Nathan Drake”; ambientação rica em detalhes, com uma excelente representação de um universo pós-apocalíptico cheio de atividades, com destaques para as impressionantes hordas; e alma. Não é mesmo um jogo só de zumbis. Ele tem identidade.

Cruzar o gigantesco mapa com sua moto Drift é uma experiência muito bacana, principalmente quando vem acompanhada de uma trilha sonora de qualidade característica. Ao fim você estará até pesquisando sobre motos, jaqueta de motoqueiro, tatuagens e tudo sobre a “filosofia” dos Moto Clubes. Neste ponto você percebe o quão significante foi sua experiência.

Ponto positivo ainda para localização do game. A dublagem está excelente, com muitas vozes famosas. Deacon St. John não é polido e solta a língua na maior parte do tempo.

Selo Recomendado

Days Gone

8

Geral

8.0/10

Vantagens

  • Ambientação espetacular
  • Bons personagens
  • Visual caprichado
  • Grandiosidade
  • Sonoplastia

Desvantagens

  • Loadings demorados
  • Engasgadas no PS4 "normal"
  • Bugs esporádicos
  • Falta de um sistema cobertura