Need for Speed Heat ainda não é exatamente um retorno aos tempos áureos da série Underground, mas pode ser considerado o melhor Need for Speed da oitava geração. Corridas eletrizantes, personalizações a perder de vista, bom ritmo de progresso e uma narrativa simples, porém competente, fazem de Need for Speed Heat uma opção bem honesta.

O jogo é a reunião de um conjunto de conceitos que deram certo nos anteriores, com a inspiração de outros nomes do mercado como Forza Horizon. Longe de ser um Frankenstein – um remendo de várias partes de outros jogos – é uma proposta bem executada, com algumas derrapadas aqui e acolá, sem comprometer o pódio.

Quando menos é mais

Este é mais Need for Speed do que qualquer outro jogo da série nos últimos anos. Ao contrário de Payback e do jogo de 2015, desta vez a Ghost Games entrega uma narrativa bem menos densa, pouco intrusiva, sem tantos melodramas e script. E por incrível que pareça, muito melhor que todas as outras.

A trama é simples. Você é um novato (a) que acaba de chegar em Palm City, uma espécie de representação de Miami, e rapidamente faz amizade com Ana, uma corredora com problemas com a Lei e com o sonho de entrar para A Liga – um equipe de corredores de rua. O objetivo é escalar na hierarquia dos rachas, ao mesmo tempo em que se disputa as corridas autorizadas da Speedhunters Showdown.

O plot ainda que fraco, já que se sustenta em oferecer aos jogadores uma história onde parte da polícia é corrupta e os corredores ilegais os mocinhos incompreendidos, é bom não porque tem personagens carismáticos, reviravoltas de dar inveja a George R. Martin ou qualquer coisa do gênero, mas porque não interrompe tanto. Não há muitas cutscenes, diálogos emblemáticos ou momentos no estilo Velozes e Furiosos.

A ideia é deixar as corridas contarem suas histórias e formaram por si uma experiência. Deu certo. Mais Speed e menos balela.

Dia & Noite

O jogo é um dualismo. Corra de dia nas Speedhunters Showdown para ganhar dinheiro e a noite, em corridas ilegais, para ganhar reputação, REP. O sistema é um equilíbrio dosado das duas experiências. Você precisa de REP para subir de nível, desbloquear melhores equipamentos e dinheiro para comprar tudo isso.

A ideia é justamente passar a sensação de dois jogos em um. No menu, basta pressionar o L3 para tela virar e você trocar o dia pela noite. E realmente há uma mudança profunda nas sistemáticas.

Need for Speed Heat
Corra de Dia por Fortuna.

As competições diurnas são focadas em ganhar o pódio. Você corre em pistas sinalizadas no estilo circuito e é aí que o game pega um pouquinho emprestado alguns dos conceitos de Forza Horizon. Há pontos de checagem, barreiras que não fazem seu carro perder tanto embalo, e toda uma vibe de festival.

Com o pôr do sol, o jogo se transforma quase em um Underground clássico. Há perseguições alucinantes, corridas de Sprint por trechos variados, colisões contra o tráfego estrategicamente colocado na última curva do evento, provações entre os corredores e um show de neon. Experimente ser pego pela polícia e verá um enorme estrago na sua conta bancária e nos seus pontos de reputação. Em dado momento, chega até ser desleal, já que os tiras são implacáveis.

Esse duo também se reflete na soundtrack. De Dia as músicas são mais…calientes, com uma batida mais latina, a Noite rola muito hip-hop com eletrônica. Por sinal, a playlist é boa, mas nada memorável. Nenhuma tão icônica como Riders on the Storm de Snoop Dogg, por exemplo.

Need for Speed Heat
E a Noite por Fama

Dedo no acelerador

Bem, é Need for Speed. Não exige muitas explicações para dizer que a jogabilidade é arcade, com a possibilidade de se fazer curvas a 200KM/h sem colocar o pé (ou dedo) no freio. Mas há algumas sutilezas.

O drift agora não é feito somente com a combinação de “freio de mão + deslizar o carro”. Em Need for Speed Heat, você deve soltar o gatilho de aceleração, voltar a acelerar e o carro já vai começar a fazer drift, e então você controla o grau de intensidade da aceleração ao mesmo tempo em que tenta deslizar. É diferente, porém bem bem simples de entender.

Isso também permite que você consiga fazer curvas em altas velocidades sem usar os freios. Mas pode ocorrer de você não querer virar, e somente desacelerar, e o bólido começar a fazer um drift em um momento inconveniente.

Já o sistema de personalização continua bem parecido com o Need for Speed de 2015, com opções em larga escala. Os mais criativos vão gastar boas horas criando réplicas famosas ou customizações próprias. Por sinal, há opção de se baixar e usar as criações da comunidade. Já há uma lista bem ampla de possibilidades.

Need for Speed Heat
Customização é excelente.

O que não impressiona tanto é a caracterização do corredor. É possível configurar seu personagem com roupas de marcas famosas, adereços e até algumas máscaras de gostos bem duvidosos.

O leque de carros é bom. São mais de 120, desbloqueados conforme você conquista REP ou cumpre aquelas dezenas de desafios bem característicos da série como: passar em todos radares, saltar em rampas, quebrar outdoors, localizar grafites e flamingos.

Vale lembrar que não há loot boxes aqui. Ao contrário de Payback, em Need for Speed Heat a Ghost Games fez o óbvio: para equipar os melhores equipamentos basta comprá-los com o dinheiro conquistado in-game. Nem deve ser um elogio, já que as mecânicas do título de 2017 eram aberrações que devem ser esquecidas.

E os fãs ficarão felizes em saber que é possível moldar os carros de acordo com um determinado conjunto de peças. Se você quer um veículo mais maleável, para drift, basta equipar amortecedores, suspensão e pneus focados nisso. Corridas de rua, circuito e de terra, idem.

Derrapagens

O jogo não acerta em todos os aspectos. Há alguns pontos que poderiam ser melhor trabalhados. A evolução é um deles. Não dá para se concentrar totalmente nas corridas noturnas, já que é necessário dinheiro para comprar as melhores peças para as competições mais altas. E não há como comprar os melhores carros sem participar das competições diurnas. O jogo força uma espécie de grind para você continuar progredindo, exigindo a repetição de algumas corridas.

E mesmo que a Noite seja mais divertido – depende de cada um, claro – o jogo não favorece tanto a “cultura de personalização”. Você é pouco incentivado a trocar de carro, fazer personalizações para impressionar seus rivais ou coisas do tipo. É até possível começar e terminar o jogo com mesmo carro durante todo gameplay.

Need for Speed Heat
Mapa de Palm City é bem amplo.

Outro aspecto está mais relacionado a ambientação e nos problemas da Frostbite Engine. O jogo é muito bonito, principalmente a noite com chuva, muito neon e efeitos de luzes. Mas na parte do dia parece que há uma queda no brilhantismo, com uma Palm City pouco vibrante. Não que seja necessário encher a cidade de pedestres, até porque não faria sentido algum, mas fica tudo um pouco opaco.

Já o motor gráfico já mostra alguns sinais cansaço. Os mesmos problemas vistos em Battlefield, Mass Effect e Anthem aparecem aqui. Renderização tardia em alguns momentos, os rostos dos personagens são muito esquisitos (lembra das faces de Mass Effect Andromeda?) E a destruição dos cenários, estranha.

Need for Speed Heat
Modelagem de personagens é bem esquisita.

São detalhes como: se você derrubar uma placa ou árvore, ao passar no mesmo lugar na volta seguinte, todo cenário estará novinho, como se nada tivesse acontecido.

E, por fim, a deslealdade da IA. Acontece, muitas vezes, de um policial aparecer quase que instantemente atrás de você e começar uma perseguição desenfreada. Parece legal no começo, mas há momentos onde você só quer fazer sua prova de drift tranquilamente, algo quase impossível em alguns momentos.

Acima do nível 3 de Pressão, a fuga é muito complicada. Os policiais são incansáveis e te prendem rapidamente, gerando prejuízos astronômicos.

Jogando online então, vira uma loucura! Need for Speed Heat tem um Online compartilhado, com outros corredores entrando no seu mapa. Você está correndo, sendo perseguido ferrenhamente, outro jogador online, em outro evento, cruza seu caminho, provocando uma mescla de perseguições. É caótico, ainda que divertido.

“Pode vir que é coisa boa”

Tamo preparado, pode vir que é coisa boa“, diz a letra Coisa Boa de Gloria Groove, uma das músicas do jogo. E esse é o resumo. Pode vir. Ainda que tenha seus defeitos, o jogo é um – finalmente – acerto da Ghost Games.[Análise] Need for Speed Heat: Vale a Pena? 1

Destaque para as corridas noturnas, repletas de adrenalina, personalização de todos os tipos, perseguições insanas, mapa aberto bem grande, com áreas bem definidas, e uma boa variedade de estilos (sprints, circuitos, drifts, contra o tempo e na terra). Além, claro, do enredo objetivo, bem mais focado no gameplay.

Need for Speed Heat pode até não ser o jogo dos sonhos, mas, definitivamente, mostra um caminho para série.

Need for Speed Heat

8

Geral

8.0/10

Vantagens

  • Enredo simples
  • Corridas noturnas eletrizantes
  • Customizações incríveis
  • Boa variedade de carros

Desvantagens

  • IA dos policiais
  • Visual dos personagens
  • Online sem muitos atrativos