Déraciné é “um jogo impressionante e peculiar, bem diferente de nossos outros títulos recentes”. Não é o Meu PS4 que está dizendo, é o próprio artista por trás da obra. Em carta enviada junto com o código de review, Hidetaka Miyazaki, deixava bem claro que essa nova obra, para o PlayStation VR, não se compara a Dark Souls e Bloodborne.

Déraciné, inclusive, significa “desenraizado” em francês. E a melhor palavra para definir esse título é mesmo diferente. Não inovador, porque sua jogabilidade, inclusive, é muito utilizada há algum tempo, o famoso point and click. Mas por trazer uma experiência que foge dos padrões da FromSoftware e da indústria em geral.

Isso tem seus pontos positivos e negativos – o que faz com que o título seja, como bem disse Miyazaki, peculiar. E como as descrições dele estão tão corretas, nada melhor do que usar alguns outros trechos desse recadinho tão bacana de Miyazaki para quem iria fazer os reviews como o norte da análise.

“Utilizamos histórias fragmentadas para trazer um conto às vezes opaco e aberto a interpretações”

A história de Déraciné é meio esquisita a princípio. O jogador assume o papel de uma fada invisível, que interage com alunos de um internato. O game gira em torno de ela provar a eles que existe, realizando diversas tarefas a pedido das crianças. Tudo isso com elementos de “viagem no tempo”.

Fada tem interações com “flashes” dos estudantes e objetos (Foto: Divulgação/Sony)

A fada é inserida em uma cena “parada no tempo”, em um data específica, e tem que coletar pistas e interagir com objetos a fim de solucionar puzzles que permitirão que o jogo avance. O cenário é o próprio internato, que tem três andares, várias salas muito diferentes (que só abrem de acordo com a missão) e diversos personagens.

A narrativa é o grande destaque do jogo, mesmo que a história seja, de fato, “opaca”. Você coleta fragmentos de memórias, recria cenas e vai montando um quebra-cabeça para desenrolar um plot maior. Tudo em cerca de seis a oito horas de duração, o que, em média, é comum no PSVR.

Cada “missão” é uma cena que acontece em um dia. Quando você alcança um objetivo dela, é “transportado” para uma outra data, que pode ser dias ou meses após a anterior. A cada “epoch”, como elas são chamadas, você explora diferentes áreas do internato e histórias dos alunos.

Jogo acontece em um internato (Foto: Divulgação/Sony)

E algo que ajuda bastante o jogador brasileiro é que o game é totalmente localizado pro nosso idioma. Ou seja, há menus, legendas e até dublagem em português. Assim, todo mundo tem a oportunidade de compreender perfeitamente a história e focar no diálogo, sem ter que ficar se preocupando com legendas.

“Fizemos questão de desenvolver um jogo silencioso para VR”

Portanto, não é muito difícil de compreender o motivo de a FromSoftware ter utilizado o gameplay mais old school possível: point and click. O problema é que isso acontece até para mover seu personagem, com aquele transporte tocando em um botão do controle, algo que esperávamos que não existisse mais após dois anos de PSVR.

Investigação é fundamental para progredir no game (Foto: Divulgação/Sony)

Isso é um ponto que prejudica um pouquinho a imersão, porque você não anda livre no cenário. Tem sempre que ir “pulando” de ponto em ponto, só para locais determinados. Outro ponto negativo da jogabilidade é que o game só funciona com o PS Move. Claro, isso aumenta a imersão, mas quem tem um DualShock 4 deveria poder jogá-lo.

Voltando ao gameplay em si, Déraciné tem momentos de alta satisfação, porém muita frustração. Alguns puzzles são super inteligentes e você se sente muito bem quando é capaz de solucionar. Outros, porém, são meio sem nexo, e fazem o jogador ficar dando voltas no internato e tentando interagir com qualquer coisa aparente para resolver.

Pelo menos, todos os quebra-cabeças são relevantes para a história, o que deixa essa frustração em determinados casos um pouco menor. Mesmo assim, poderia haver, por exemplo, um sistema de ajuda para jogadores iniciantes ou que fosse ativado quando alguém ficasse preso em uma cena por muito tempo.

Você precisa explorar até a parte de fora da escola (Foto: Divulgação/Sony)

As soluções vêm de dicas das memórias antigas dos alunos, além dos itens que estão espalhados no cenário. Só que a diferença para a maioria dos point and clicksé que há muito espaço para explorar, o que dificulta ainda mais as coisas. O local é muito grande, não somente uma salinha, como ocorre normalmente nesse tipo de game.

E Déraciné um jogo silencioso, no sentido de não ter ação, combate ou boss fights como os títulos de maior reconhecimento da FromSoftware, mas tem uma trilha sonora ótima e que se encaixa perfeitamente no tema do game. Visualmente, ele também não deixa em nada a desejar, ficando no mesmo nível dos melhores jogos do PSVR até agora.

“Déraciné é um título repleto de experimentos e novas ideias”

Mas fica a clara sensação de que ele é mesmo um experimento. Uma primeira tentativa de Hidetaka Miyazaki trabalhar com as possibilidades de imersão e narrativa que só os games de PlayStation VR permitem. E só de ver um cara desse peso tentar produzir um título de alto nível nos óculos de realidade virtual da Sony já é interessante.

Mas, no fim das contas, Déraciné é uma experiência bem mais ou menos. Tem pontos muito legais e outros que incomodam. A narrativa é boa, porém não chega a cativar. O gameplay é menos inovador do que poderia ser. Mas o visual e a localização pesam a favor. 

É uma experiência mediana, que até tem o preço justo de R$ 119,99, mas que não nos demonstrou atrativos suficientes para ser recomendada. Se ficar bem baratinho, vale a compra. Caso contrário, é melhor esperar o próximo passo de Miyazaki no VR. Se ele aprender com os erros e acertos dessa experiência, certamente virá coisa boa por aí.

Avaliação
Geral
6