Este que vos escreve é, antes de mais nada, suspeito para tecer quaisquer palavras acerca do jogo que é objeto dessa nossa análise. Me apaixonei, há muitos anos atrás, por toda beleza, misticismo e desafio enfrentado e vencido em Demon’s Souls. Continuei tal legado em Dark Souls, que elevou quase todos os conceitos de seu predecessor espiritual a um próximo nível, me encantando novamente no universo da luz, treva e almas. Com Dark Souls 2 não foi diferente, e a despeito de um certo déficit na qualidade total do jogo, amei andar por aqueles cenários como nunca antes. E com cada jogo desses, uma platina foi conquistada, o que, convenhamos, não poderia ser diferente depois de tanta dedicação.

Agora é a vez de Bloodborne, novo jogo da From Software, dirigido por Hidetaka Miyazaki e lançado exclusivamente para PlayStation 4 em 24 de março de 2015, e fazendo as vezes de sucessor espiritual da “série Souls”, busca permanecer-se no mesmo trilho de seus já consagrados jogos. E mesmo com o ônus de enfrentar toda expectativa que se criou em torno de seu lançamento, Bloodborne enfrenta-o de peito aberto, sem escudo na mão, e se sobressai vencedor, sendo tranquilamente um dos melhores jogos que joguei em muitos anos.

Em alemão existe a palavra Zeitgeist, que pode ser traduzida como “espírito da época”. Inexiste, portanto, palavra que qualifique melhor Bloodborne nesses momentos que sucedem seu lançamento: existe uma comoção geral, um frenesi que assola todos os jogadores que exploram os sinuosos caminhos do jogo sem conhecer nada além do que se demonstra em sua frente, temendo virar na próxima esquina e enfrentar algo que esteja além de suas capacidades momentâneas; e como nem sequer a Wiki do jogo existe, jogador recorre a jogador para trocar experiências e dicas sobre o jogo, gabar-se de batalhas épicas, desvendar a exotérica trama, etc. E só quem pôde jogar um jogo da From Software desde seu lançamento pode descrever o quão incrível é fazer parte de toda discussão e descoberta.

Bloodborne

Como vocês já devem saber, os jogos da série Souls se destacam por sua elevada dificuldade, joia rara em tempos em que as desenvolvedoras tendem a diminuir a participação do jogador em seus jogos, seja para valorizar a trama ou por simplesmente visar tornar mais palatável o término do jogo.

Bloodborne mantém essa fórmula, exigindo em sua jogabilidade a mais pura atenção do jogador em suplantar os desafios propostos. Toda mecânica do jogo apresenta-se, desde o início, como sendo extremamente honesta e responsiva; aqui, todo êxito e falha é crédito e culpa inteira e exclusivamente do jogador, e isso é lindo. A dificuldade inicialmente apresentada por Bloodborne é cada vez mais mitigada conforme você tenta, de novo e de novo, os desafios propostos, até um ponto em que, outrora impossível de se avançar, torna-se trivial o inimigo até então carrasco, muito mais pelo incremento na capacidade do jogador em se provar em determinado trecho do que, por exemplo, ter melhorado determinado atributo.

Mecânicas e jogabilidade

Comparativamente, para os leitores que já se experienciaram na série Souls, faz-se necessário traçar alguns paralelos entre os jogos anteriores e Bloodborne. A movimentação, exploração do cenário e controles permanece praticamente a mesma. O núcleo da jogabilidade, no entanto, sofre uma contumaz alteração: a mecânica de espada e escudo, tão difundida outrora, foi substituída por armas que se alteram conforme o gosto do jogador (em formatos mais rápidos ou fortes) e a implementação de armas de fogo.

Assim sendo, a velha estratégia de usar um escudo pesado em uma build focada em stamina para tankar os ataques inimigos não existe mais, dando lugar a necessidade de usar agora, mais do que nunca, as esquivas. Com o botão da esquiva, o jogador deve desviar nos momentos oportunos, aqueles que antecedem os ataques inimigos, evitando assim o dano causado para, logo em seguida, poder ataca-los ao menor sinal de uma brecha.

Bloodborne

Para auxiliá-lo nessa função, sua arma fará as vezes do escudo no que diz respeito ao sistema de parry existente. Em Bloodborne, se você atirar em um inimigo momentos antes de este acertá-lo, ele ficará momentaneamente paralisado, possibilitando que você possa executar um ataque crítico.

Um sistema completamente novo, implementado em Bloodborne, é o da possibilidade de recuperar seu HP logo após perde-lo para um dano físico. Explico: assim que recebe um ataque, o jogador vê sua barra de vida reduzida de maneira não definitiva, uma vez que seu medidor flagra o dano recebido pelo último ataque. Assim, caso o jogador queira, basta imediatamente causar dano a outros inimigos para encher novamente seu HP, não gastando para tanto os itens de cura. A mecânica, que em um primeiro momento parece existir apenas com o fito de facilitar o jogo, traz vivacidade única aos combates de Bloodborne, uma vez que exige resposta rápida e que se aposte constantemente: vale a pena eu tentar recuperar esse HP, me deixando exposto a novos golpes, ou será melhor recuar, perder o HP e abordar o inimigo com mais cautela? Risco-recompensa.

Paciência, atenção, reflexo e agilidade marcarão seu sucesso ou fracasso em Bloodborne.

Mencionei itens de cura, não? Vamos a eles.

Agora, ao invés de contar sempre com um número certo e constante de itens de cura ao retornar às lâmpadas posicionadas no início de cada área (os checkpoints do jogo), o jogador deve adquiri-los de certos inimigos que derrubarão esporadicamente, ou se utilizar das Blood Echoes para compra-los do mercador alocado em Hunter’s Dream, seu hub em Bloodborne.  A mudança interfere diretamente no level design do jogo, podendo torna-lo mais fácil, caso o jogador opte por gastar um tempo “farmando” tais itens em inimigos mais fracos, ou mais difícil, caso a paciência se esgote e você escolha enfrentar os chefes com o que você tem.

Bloodborne 7

Outro consumível a se atentar são as quicksilver bullets, munição que pode ser utilizada nas armas de fogo do jogo. Obtidas da mesma maneira que os Blood Vials, a quantidade desses itens em seu inventário influencia diretamente seu sucesso em atravessar os cenários apinhados de inimigos – isso se, claro, você optar por arriscar usá-las para desferir os visceral attacks, infligindo dano crítico às pobres feras desafortunadas.

No geral, essas são as principais novidades mecânicas de Bloodborne. Todo o resto – exploração minuciosa e atenciosa dos cenários, avançando cadenciadamente sempre em direção à um novo desafio, maior e maior, desembocando sempre em um clímax cada vez maior – tudo isso se mantém e se eleva em Bloodborne se comparado aos outros jogos; ou melhor: Bloodborne leva todos esses conceitos à perfeição.

Ambientação e gráficos

Poucos termos definem melhor toda a ambientação de Bloodborne do que macabramente lindo.

Ao avançar pelos opressores cenários do jogo, que reúne em um sinistro mosaico cidades vitorianas da mais patente pobreza, cemitérios, florestas, castelos e pântanos, o jogador tem a impressão de estar desperto dentro de um pesadelo ou, pior, um pesadelo redigido por Edgar Allan Poe ou H.P. Lovecraft.

A palheta de cores é sempre escura, plúmbea e avermelhada, imprimindo no jogo um constante clima de Halloween que se intensifica à beira do insuportável após tingi-lo com baldes e baldes de sangue dos inimigos abatidos. Não fosse ser um RPG de ação, tal ambientação seria muito bem vinda à qualquer jogo de terror, tamanha a sensação de horror que certos conceitos visuais podem causar.

Bloodborne

Por falar nisso, falemos agora de um dos principais protagonistas dessa mistura linda e louca que é Bloodborne: os inimigos.

Cada área das já citadas acima abriga uma certa variedade de inimigos que são únicos em seu design, comportamento, posicionamento e dificuldade. Todos demonstram em suas formas e fisionomias o quão imperfeito e corrupto é todo universo de Bloodborne. Uma análise mais pormenorizada dessas criaturas permite que aos poucos se desvende mais a história e o lore por detrás do jogo, acrescentando muito sentido e motivo a tudo que permeia a aventura.

Os chefes, por sua vez, são a epítome de tais inimigos. O design de cada um deles representa perfeitamente o que ele é dentro da mitologia do jogo, e toda sua expressão corporal, gritos e padrões de ataque tornam cada encontro único, cada boss uma experiência completa e pessoal; cada jogador terá uma história para contar, uma estratégia para compartilhar e um palavrão preferido para cada morte amargada.

Seu personagem, protagonista de todo esse caos, também é peça importantíssima em toda ambientação de Bloodborne. Toda vestimenta disponível (composta principalmente por túnicas e roupas ao invés de elmos e couraças) faz seu avatar parecer um carrasco das criaturas amaldiçoadas que vagam pelo jogo; e rapaz, esse carrasco tem armas tão legais!

Além das já mencionadas armas de fogo, que por si só variam muito em utilização e versatilidade, o jogador conta agora com as trick weapons, armas que se transformam com um simples tocar de botões, possibilitando mudanças drásticas no combate e jogabilidade, sem precisar recorrer a constantes trocas de armas.

Aspectos técnicos

Tecnicamente, Bloodborne é praticamente impecável. A despeito de pouquíssimas quedas na taxa de quadros (apenas em determinadas áreas – um abraço, Blighttown!) e telas de load demasiadamente demoradas, o jogo conta com belíssimos efeitos de luz e sombra, as texturas são ricas e elaboradas, e em tudo há movimento, desde objetos dos cenários até a roupa dos inimigos e protagonista.

Submeter-se à trilha sonora original composta para o jogo é uma experiência fantástica, o que te permite aprofundar-se cada vez mais no clima e trama do jogo, sinistra e profunda. Os efeitos sonoros são muito bem executados, e tenha certeza de que cada machadada soará única ao cravar-se na carne inimiga.

Bloodborne

Os comandos do jogo, forte pilar de tudo que Bloodborne representa, são extremamente responsívos e variados, permitindo que o jogador seja versátil para cada situação e adversidade encontrada. Graças à sua primorosa jogabilidade, o jogador poderá criar combos dos mais variados, tudo a depender de suas habilidades, armas equipadas e a necessidade enfrentada.

Narrativa

Bloodborne apresenta uma espécie de narrativa exotérica e minimalista que lhe serve como um charme.

Pouco é exposto e detalhado, recebendo o jogador apenas alguns detalhes retirados de diálogos breves e misteriosos. As descrições dos itens encontrados também é importante chave para decifrar quais acontecimentos são vivos pelo jogador e em que aquele mundo se consiste.

Assim sendo, pouco a pouco a comunidade começa a revelar detalhes mais profundos e completos sobre a trama, que pelo pouco que é mais bem exposto, é sombria e aterrorizante em seu clima imprimido.

2 - Selo de Ouro