Liberté, Egalité, Fraternité. Dois séculos após a Queda da Bastilha, Detroit: Become Human marca uma nova Revolução Francesa. Assim como a sociedade da França teve a coragem de enfrentar a monarquia no Século XVIII, uma desenvolvedora de games de Paris rompe com os padrões da indústria e inova no mais recente exclusivo do PlayStation 4.

Detroit: Become Human foi um jogo que nós vimos muitas vezes antes da versão final. Teve demo na E3, teve outra demo e entrevista na PSX, foi eleito pelo Meu PS4 o melhor jogo da BGS e ainda rolou preview de duas horas em um evento exclusivo em Los Angeles. É claro que já dava para esperar o que vinha por aí. E, ainda assim, ele foi capaz de surpreender.

As histórias de Markus, Connor e Kara, e seus desdobramentos, são muito mais profundas. As polêmicas que aparecem nos trailers são só uma parte das controvérsias relevantes que são levantadas. As opções de decisões são muito mais vastas do que as de qualquer game desse estilo. Os gráficos não sofreram nenhum downgrade e seguem excelentes.

E como se não bastasse ser um exemplo de imersão e um belo trabalho técnico em todos os aspectos, Detroit ainda é muito importante como prova de força da indústria gamer, em especial dos jogos com narrativas. Contundente, bem feito e divertido, com um alto “Fator Replay”, ele não é perfeito, mas é aquele game que você tem que jogar. Pela revolução!

“Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”

Segregação, preconceito, abuso infantil, drogas, exploração sexual, religião, política, crimes hediondos, desemprego, alcoolismo, imigração, escravidão, polícia, família, amor, ideologia, tecnologia, psicologia, homossexualismo… Tem tudo isso, e mais um pouco, em Detroit: Become Human. Mas o que mais define o novo game da Quantic Dream é a tal liberté.

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Markus lidera os androides nessa revolução (Foto: Reprodução)​

A começar pelo enredo, claro. Sua grande missão é lutar pelos direitos dos androides em uma sociedade tão avançada tecnologicamente, mas ainda parada no tempo em aspectos básicos, como o respeito ao próximo. Em Detroit, Estados Unidos, no ano de 2038, robôs humanóides são uma realidade no dia a dia das pessoas.

Só que essa tecnologia vem com um preço. Eles passam a fazer funções de humanos, que se irritam e passam tratá-los com desdém. Há ainda uma segregação entre eles: há lojas em que é proibida a entrada de androides, e nos meios de transporte eles têm que andar afastados de seres humanos.

Mas, assim como diversos outros avanços, os androides também têm “falhas”. Muitos deles começam a pensar, de fato. São chamados de “divergentes”, por pararem de simplesmente obedecer o que seus donos falam e terem seu próprio livre arbítrio. Daí nasce o movimento que nos já vínhamos vendo desde os trailers de divulgação de Detroit: Become Human.

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Você escolhe como quer conduzir a revolução (Foto: Reprodução)​

Os protagonistas são aqueles mesmos apresentados há muito tempo: Markus, líder dessa revolução e salvador do seu povo, Connor, seu antagonista, um policial androide feito para impedir os divergentes, e Kara, que encontra-se no meio desse conflito somente querendo salvar uma menina dos maus tratos do pai.

A história é muito bem amarrada, e apesar de curta, é extremamente gratificante. É fácil de criar empatia com os personagens. Pensar como eles. Sofrer quando algo dá errado. Vibrar ao fazer uma escolha que dá um resultado certo. Isso graças ao sistema dedecisões que já se tornou tradicional nos jogos da Quantic, mas está ainda mais evidente em Detroit.

David Cage, escritor e diretor do game, contou que foram mais de 4 mil páginas de roteiro, além de centenas de possíveis decisões diferentes que o jogador toma no jogo. Todo esse trabalho é nítido no produto final, e o resultado é muito bom. Quando você termina o game pela primeira vez, logo bate aquela vontade de jogar de novo.

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Detroit tem cenas bem fortes (Foto: Reprodução)​

Especialmente se você seguir a recomendação de Cage, e que também é dada assim que você começa o jogo, de fazer a sua história completa na primeira vez, sem parar, optando pelo que vier à cabeça. Depois disso, sim, você volta, joga tudo de novo ou então vai indo de missão a missão para ver o que perdeu e o que poderia ter sido diferente.

É importante frisar que Detroit: Become Human tem cenas fortes. Não só pelos temas que são abordados, como também pelas imagens mostradas. Há momentos que podem gerar repulsa, outros tristes e muitos surpreendentes. Por isso, esteja preparado para uma bela montanha-russa de emoções durante o game.

Até porque ele não gira em torno apenas dos três protagonistas. Os coadjuvantes também são fundamentais para os eventos desencadeados na cidade de Detroit, e todos são muito marcantes; cada um da sua maneira, claro. Não daremos spoilers, mas lembre-se disso na hora de jogar e depois venha aqui nos comentários para dizer se não é verdade.​

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​​Coadjuvantes também são marcantes em Detroit (Foto: Reprodução)

Além de Markus, Kara e Connor, você se identificará com Luther. Hank. Rose. Carl. North. Outro ponto interessante é a escolha da dificuldade. É possível jogar para aproveitar essa experiência completa, independente das suas decisões, ou para realmente perder um dos protagonistas quando ele, por algum motivo, acabar sendo desativado.

E não é só a Revolução Francesa, com direito até a uma versão aproximada da Queda da Bastilha, o único movimento político, ou histórico, com quem é possível traçar paralelos em Detroit: Become Human. Apartheid, Nazismo, Black Lives Matter. O jogo é um prato cheio de referências.

“Você Decide”

A liberdade também é a palavra-chave do gameplay de Detroit: Become Human. Afinal, os jogadores podem definir os rumos da história de acordo com suas ações – e elas realmente importam. É claro, há muitas coisas pré-definidas, até para o enredo não se perder. Porém, você nota, claramente, especialmente ao fim de cada missão, quantas possibilidades há.

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Escolha da dificuldade é bem interessante (Foto: Reprodução)​

Muitos dos nossos leitores não eram nem nascidos ou ainda eram muito pequenos quando “Você Decide” fazia sucesso na Rede Globo nos anos 90. Se você nunca ouviu falar desse clássico da TV brasileira, ele consistia em um episódio com uma história que você assistia até o penúltimo bloco, quando podia ligar para votar em qual final queria ver.

Detroit é isso aí, só que você não precisa esperar até o finalzinho do jogo para decidir qual rumo você quer dar para as histórias de Kara, Markus e Connor. E, claro, nem tudo que se deseja, vai acontecer. Mesmo que você ache que está tomando uma decisão ótima, no fim das contas ela pode ser péssima.

E isso é muito legal, porque dá a sensação de imprevisibilidade que é a nossa vida mesmo. Nem sempre o que você faz tem o resultado que se espera. Sem falar nos detalhes, que as pessoas muitas vezes deixam passar batido, mas que podem fazer a diferença lá na frente. Você sente tudo isso ao jogar Detroit: Become Human.

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Cada decisão é fundamental, não só no momento, como no futuro (Foto: Reprodução)​

Assim como na vida real, também, o jogador não tem muito tempo para pensar. Os “quick time events” são realmente quick, ou seja, rápidos. É preciso tomar decisões difíceis, com pouquíssimo tempo, sempre pensando nas consequências que elas terão. Não apenas na trajetória daquele personagem, como de todos os outros envolvidos.

São várias as situações em que você precisa escolher entre si ou o coletivo. Entre um dos seus companheiros e outros. E cabe a cada um usar o seu livre arbítrio para decidir – e se conformar com o que vier a seguir. É um exercício bem bacana, onde a imersão ajuda e o enredo também. Suas decisões, certamente, podem dizer bastante da sua personalidade.

Também é importante falar da liberdade de explorar os cenários em cada “fase”. O jogador tem seus objetivos básicos, mas não precisa correr para cumpri-los. É bom sempre prestar atenção ao redor e buscar informações extras ou colecionáveis, sem falar em desbloquear novas possibilidades que só aparecem se ele for atrás delas.

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Quick Time Events são a base da jogabilidade (Foto: Reprodução)​

Se por um lado não tem muita ação, de fato, existem muitas opções de interação diferentes em cada cena. Seus personagens podem pular, destruir coisas, atirar, brigar… O gameplay vai muito além das conversas e decisões – e os comandos são super práticos e coerentes com as ações propostas. Foi um ótimo trabalho da Quantic também nessa construção.

Gato de Schrödinger

“Ah, mas é um filme ou é um jogo?”, questionam alguns internautas sobre Detroit: Become Human. Bem, sabem aquela história do Gato de Schrödinger, que é “vivomorto”, porque se você não abrir a caixa, nunca saberá como ele está? É tipo isso. Podemos dizer que ele é – assim como todos os outros games da Quantic Dream – uma experiência.

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Visual do jogo é incrível (Foto: Reprodução)​

O gameplay pode parecer “morto” para muita gente. Você até anda bastante, investiga uma coisa aqui ou outra ali, mas no fim o que importa mesmo é qual botão você aperta em cada diálogo e se é rápido o bastante nos quick time events. Por outro lado, a sua narrativa é tão “viva” que pode compensar isso muito bem.

“Heavy Rain”, “Beyond: Two Souls” e “Until Dawn” são alguns exemplos de jogos que usam essa fórmula e são muito bons. Se você jogou e gostou, muito provavelmente irá aproveitar demais Detroit: Become Human. Não só pela sua narrativa ser rica, como por oferecer bem mais opções de decisões e cenas do que os outros.

E, nos aspectos técnicos, Detroit também está “vivíssimo”. Especialmente nos gráficos. Em 4K, com HDR, no PS4 Pro e uma TV de qualidade, o jogo é muito bonito. As faces de todos os personagens são estonteantes. Nas cenas com a câmera mais aproximada, é de ficar de queixo caído o trabalho visual da equipe da Quantic Dream.

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Apresentação do jogo agrada bastante (Foto: Reprodução)​

Nos cenários e enquanto você está mais jogando, como explorando um ambiente ele não é tão impressionante quanto o recém lançado God of War, mas ainda assim é um baita visual, que merece muitos elogios. Só o loading entre uma missão e outra que não é muito bacana de esperar. Poderia ser algo mais criativo e imersivo.

Por outro lado, a apresentação do jogo agrada bastante. A forma como os comandos estão exibidos em cada cena e a exibição dos objetivos são muito bem feitas. Detroit é futurista, sim, mas na pegada certa. Como os desenvolvedores sempre afirmaram, a história ocorre daqui a 20 anos, então é um futuro bem parecido com o presente.

Se o visual é ótimo, o áudio está em um nível ainda mais acima. A trilha sonora de Detroit: Become Human é avassaladora. A “melancolia” das músicas de Kara toca a alma. Faixas para Marcus dão sempre um ar de coisa épica. Connor tem suas dúvidas expressadas de forma perfeita com as canções. É uma aula de sonorização.

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De tirar o fôlego! (Foto: Reprodução)

Tanto nos instrumentais de background como nos diálogos e sons em geral. A dublagem é excelente – tanto em inglês quanto em português. E não poderia ser diferente em um game onde as conversas são fundamentais. Vale lembrar que Detroit está totalmente localizado para o Brasil, com áudio, legendas e menus no nosso idioma.

Outro ponto importante a se destacar é o Fator Replay do jogo. Esse é um single-player só focado na história, então poderia simplesmente ser algo do tipo “zerou, tchau”. Mas não é. São tantas as possibilidades de mudanças em cada cena, que é possível gastar bem mais do que as oito a dez horas de uma campanha.

Até porque há algumas cenas e missões inteiras que você sequer irá jogar dependendo das decisões que tomar. Quando você chegar ao menu da história após zerá-la e notar quantas coisas “deixou passar”, certamente baterá aquele desejo de explorar novamente a história – para descobrir o que vai acontecer após outras decisões.

“É o nosso futuro!”

Detroit: Become Human não é perfeito. Seu enredo, apesar de tocar em temas relevantes e ter ótimas plot twists, deixa algumas dúvidas no ar. Sua jogabilidade poderia ser um pouco mais incisiva, e os movimentos dos androides são meio “travados” em alguns momentos. E a sua duração é curtinha.

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Detroit: Become Human provoca diversas reflexões (Foto: Reprodução)​

Mas nada disso é o bastante para que ele não seja Recomendado, quase Obrigatório. Sua proposta narrativa merece ser valorizada. Sua coragem de colocar o dedo na ferida em um monte de assuntos polêmicos, independente de viés político, é elogiável. O trabalho gráfico é espetacular. E as ramificações da história nem se fala.

É claro que R$ 199,99 não é um valor barato, ainda mais em um ano cheio de lançamentos de alto nível e com God of War recém chegado ao PlayStation 4. Mas, mesmo que você só possa Esperar Uma Promoção para comprá-lo, não deixe de jogar Detroit: Become Human. Não só pelos aspectos técnicos, que são excelentes, mas por tudo o que ele representa.

O futuro que o jogo mostra é em 2038, e quem passa por todas as complicadas situações apresentadas são androides. Mas hoje, em 2018, já podemos ver muitos seres humanos, de carne e osso, sendo obrigados a viverem dificuldades como essas, com seus direitos ceifados por inúmeros motivos.

Não importa seu posicionamento político. Sua religião. Sua cor de pele. Sua classe social. Sua preferência de gameplay. Se tiver condições, jogue Detroit: Become Human. Mesmo que esses temas pareçam chatos e esse estilo “filme interativo” não lhe agrade. Ele pode servir para te fazer “acordar” (jogue para pegar a referência) sobre muita coisa.

E, mesmo que não sirva, pelo menos vai te divertir bastante, porque é um ótimo game – e, no fim das contas, isso é o que importa para nós, gamers, não é?

Detroit: Become Human chega, exclusivamente, ao PlayStation 4 nessa sexta-feira (25). O review foi feito em um PS4 Pro com uma cópia do jogo cedida gratuitamente pela Sony uma semana antes do lançamento.

Avaliação
Geral
9