Seu helicóptero caiu em uma ilha. A maioria dos seus colegas morreu. Soldados armados até os dentes estão te caçando – com direito a drones assassinos, que abatem qualquer um que tentar sair ou entrar na região. Liderados por um “ex-amigo” que era Militar e agora tornou-se um Mercenário. É nesse cenário que Ghost Recon Breakpoint coloca o jogador.

Sufocado. Tenso. Calculando cada passo. Com uma sensação de que o stealth é tão crucial quanto em títulos como Metal Gear Solid e Hitman. Mas também preparado para ter que se embrenhar em batalhas intensas, cheias de tiros, explosões e destruição contra não apenas humanos, como robôs, drones e veículos automatizados capazes de matar em segundos.

A intenção da Ubisoft com o jogo era justamente criar esse tipo imersão. Ela faz isso muito bem, do primeiro até o último segundo da aventura principal e nas sidequests, que não são poucas. A ambientação excelente e os gráficos de alto nível ajudam. Mas, infelizmente, nos outros quesitos, Breakpoint fica longe de ser tão bom quanto essa sensação.

Tiro no pé

Ghost Recon Breakpoint, assim como muitos títulos desse final de geração, parece sofrer, e tentar entregar algo a mais do que os consoles atuais podem entregar. Esse visual tão belo, claro, cobra seu preço. O pop-in é notório e incomoda, há quedas de frames, travamentos e bugs bem bizarros – como o personagem ficar segurando uma arma invisível.

Image
Ué? Cadê minha arma? (Foto: Reprodução/Thiago Barros)

Pode ser algo de “exagero” no visual ou então aquela velha correria para lançar um jogo, e ele não estar 100% pronto para tal – como já vimos inúmeras vezes. Depois, vêm patches, com tamanhos gigantescos, e pedidos de desculpas em redes sociais.

É uma pena, porque a construção da ilha de Auroa é muito bem feita, há diferentes climas e horários do dia, neve, floresta, mar, lago… Tudo acessível a pé ou usando veículos, que vão desde carros e motos a barcos, helicópteros e caminhões. Os visuais dos personagens mais importantes também são incríveis – especialmente as possíveis faces de Nomad.

As opções de personalização também são bacanas, apesar de limitadas (pelo menos para quem não quer gastar em microtransações). O novo elemento de RPG, contudo, possui os seus momentos bons e ruins. É até bacana a adição (apesar de desnecessária), porém não dá para saber direito o quanto os equipamentos melhoram o personagem de fato.

Image
Ambientação é ponto alto de Ghost Recon Breakpoint (Foto: Reprodução/Thiago Barros)

Ainda é esquisito ver um jogo que, teoricamente, é tático e preza pelo realismo (que pode ficar bem intenso mesmo caso o jogador escolha a dificuldade mais alta e o modo que se chama Exploração, onde não há dicas e sinalizadores no mapa), usar mecânicas de RPG – como progressão de nível. Parece algo só para entrar “na tendência” da geração.

E o personagem, Nomad, além de roupas novas e equipamentos, também ganha os pontos de habilidade para investir em uma skill tree. A ideia de progressão de um RPG está muito presente mesmo e, para conseguir deixar o protagonista realmente preparado para duelos mais intensos a cada “fase”, é preciso se dedicar.

Em Breakpoint, seria mais interessante se houvesse mais perks nos itens e se ficasse clara para o jogador a real diferença que ele pode fazer para sua defesa ou ataque, por exemplo. Por outro lado, há de se elogiar a Ubisoft permitir que o player deixe seu personagem forte e bonito ao mesmo tempo.

Image
Arsenal de Ghost Recon Breakpoint é bem variado (Foto: Reprodução/Thiago Barros)

Quando você coleta um item mais forte, pode equipá-lo, mas manter a aparência de algum outro que já tenha liberado. Há alguns equipamentos que são da Oakley, por exemplo, e se os jogadores gostarem deles, podem equipá-los como “skins”, mas na realidade usarem os itens que forem mais fortes de seu arsenal.

Respirando por aparelhos

Ghost Recon Breakpoint mistura uma série de elementos no mesmo jogo. Sobrevivência, com o seu medidor de fadiga, Mundo Aberto, com várias sidequests, RPG, com progressão de nível do personagem e dos equipamentos, Shooter Tático, com modo PVP e tudo… Mas, no final das contas, não se sobressai em nenhum deles.

Image
Gráficos agradam, já a história… (Foto: Reprodução/Thiago Barros)

Sem falar na própria história em si, que é insossa, com cutscenes sem emoções e diálogos bobos. A narrativa não prende em momento algum, a tradução nas legendas também não soma muita coisa, os personagens não têm qualquer carisma e nem mesmo o vilão gera a vontade de enfrentá-lo – diferentemente de Ghost Recon Wildlands.

E é tanta coisa para fazer, com as missões principais, sidequests, investigações, armas para descobrir, quests de facções, baús de itens espalhados pelo mapa para abrir… Que, mais pro final do jogo, você já quer sair pulando todas as animações e cenas de história para avançar para o gameplay. Este que também tem seus altos e baixos.

Por exemplo: os combates são bem interessantes. A maneira como você consegue fazer a camuflagem do personagem, os golpes quando o kill é em stealth, o uso de drones para se precaver e observar os inimigos, a variedade do arsenal… Tudo isso é bacana e vai garantir sua diversão, especialmente com os amigos no coop.

Image
Camuflagem é ponto alto do gameplay (Foto: Reprodução/Thiago Barros)

Outro ponto positivo é que você encontra inimigos no mapa a todo o momento, e também vai descobrindo novos locais, segredos, pistas de investigações. Realmente, é um jogo de “recon”, ou seja, “reconhecimento”. Explore a Ilha de Auroa toda e você terá muita coisa bacana para descobrir. Foi justamente isso que impressionou na Beta.

Você pode até usar os acampamentos para fazer fast travel ou andar de helicóptero, que é, sem dúvidas, excelente para percorrer longas distâncias sem ser importunado. Porém, vai perder uma das partes mais divertidas do jogo, que é justamente fazer essas viagens pela ilha e ir descobrindo o que ela esconde.

Entretanto, tudo pode acabar se tornando repetitivo, dependendo do seu estilo de jogo – e isso é um problema comum de todos os jogos de mundo aberto. As primeiras horas fluem que é uma beleza, mas para continuar no ritmo depois… Assassin’s Creed que o diga, não? Haja criatividade e variações para que o jogador se mantenha engajado.

Image
Missões e mais missões (Foto: Reprodução/Thiago Barros)

Isso não acontece no novo Ghost Recon. Seu level design é bem simplista e lembra outros games da Ubisoft, como o próprio Ghost Recon Wildlands, The Division 2 e a série Far Cry. A mecânica das missões é sempre a mesma. Vá até o local, use o seu drone para fazer aquele reconhecimento, mate os inimigos e colete alguma coisa ou alguém. É cansativo.

A impressão que passa é que Ghost Recon Breakpoint pode agradar um público específico – exceto a parte dos bugs, que realmente precisa muito ser corrigida. Quem curte grind, uma porrada de inimigos para derrotar e essas mecânicas comuns em outros jogos da empresa, sem dúvidas gostará. O restante do público, provavelmente, nem tanto.

O que é uma pena, porque é um jogo muito bonito graficamente e tem pontos positivos na jogabilidade, especialmente no combate e no sistema de stealth. Talvez ele pudesse ser um pouco mais curto ou ter missões mais variadas. Ou armas e veículos realmente diferentes – porque, na prática, tudo, infelizmente, parece “a mesma coisa”.

Image
Acampamentos para Fast Travel ajudam (Foto: Reprodução/Thiago Barros)

O ritmo é sempre o mesmo das missões. Você vai a um local, sobe o drone, marca todos os inimigos, atira neles de sniper ou vai caçando-os homem a homem, coleta o objetivo e sai. E até há uns encontros aqui e ali no mapa aberto, mas nada que torne essa nova aventura prazerosa. É um mar de repetições – e de absurdos.

Você consegue subir montanhas seja de carros sedan comuns, com uma 4×4 ou até com uma moto. As armas de uma mesma categoria são extremamente semelhantes (snipers, rifles automáticos, pistolas). E o comportamento dos inimigos, em muitos casos, idem. É algo que atrapalha a imersão e o conceito de realismo sempre presente na série.

Tudo fica mais real na dificuldade mais hardcore, em que você não tem indicações de onde ir no mapa, os inimigos são mais inteligentes e sua vida não regenera. Mesmo assim, esse não parece um título de tiro tático. Outro detalhe bom de frisar: até dá para jogar sozinho, mas você vai sofrer em muitos mapas.

Ghost Recon Breakpoint: vale a pena?

Por conta de todos esses detalhes, a recepção de Ghost Recon Breakpoint não vem sendo tão positiva assim. Muitos comentários criticando o jogo estão aparecendo na Internet, e a média dele nas avaliações dos usuários no Metacritic é de apenas 3,4. É mais um caso das trollagens desnecessárias na Internet, que são um grande desserviço aos jogadores.

Há, sim, críticas compreensíveis e justas. Contudo, não existem motivos para tantas notas Zero. Aconteceu o mesmo com NBA 2K20, por exemplo – e até pior, já ele ganhou nota 0,7 dos usuários no site. Tudo por causa do excesso de microtransações. Algo que, realmente, é um problema – especialmente no jogo de basquete.

Porém, em Ghost Recon, é uma funcionalidade que sequer fica na cara do jogador. Críticas a jogabilidade, diálogos, enredo e, principalmente, bugs, OK. E falar das microtransações até é compreensível, já que é possível comprar cosméticos, armas e equipamentos com dinheiro real. Mas não é por causa disso que o jogo precisa ser tão mal avaliado.

3 - Selo de PrataEsse tipo exagero, tanto para mal quanto para bem, deve ser combatido. Tanto em reviews de sites especializados como em comentários dos usuários. Não dá para você dizer nem que o novo Ghost Recon é um jogaço, nem que é descartável. Ele está “no meio” e, sem dúvidas, tem atrativos. O visual, seu bom coop, a variedade de equipamentos, a ambientação, os combates divertidos e desafiadores, a opção de escolher a dificuldade entre bem casual e bastante hardcore…

Enfim, depois desse pequeno desabafo, a resposta à pergunta que é feita em todas as análises aqui do site: ele vale a pena? Por enquanto, não. Espere uma promoção (e um update) caso haja interesse em adquirir Ghost Recon Breakpoint. O jogo não é digno de zero, nem de 1, 2, 3, 4… Mas está, sim, abaixo da média que nós consideramos justa para recomendar um jogo (aqui, no Meu PS4, uma nota 8).

Os lindos gráficos e as interessantes possibilidades de progressão e personalização não são o bastante para apagar o enredo sem sal, a IA pouco impressionante, os muitos bugs e as falhas de jogabilidade. Ghost Recon Breakpoint tinha/tem para ser um baita shooter tático, com um mundo aberto enorme e vastas opções. Porém, não consegue alcançar o objetivo.

Ele parece uma colagem de recursos de outros jogos da Ubisoft e foge bastante da linha da estratégia e tática de Ghost Recon – para ter um gameplay bem ao estilo Just Cause. Outro jogo enorme, com boa ambientação e combates divertidos, mas que não consegue prender os jogadores pelas muitas horas necessárias para terminá-lo.

Missão dada, nesse caso, (ainda) não foi missão cumprida.

Ghost Recon Breakpoint

7

Geral

7.0/10

Vantagens

  • Gráficos e ambientação de alto nível
  • Opções de progressão e dificuldade
  • Variedade de armas e veículos

Desvantagens

  • Enredo e diálogos insossos
  • Gameplay simplista e repetitivo
  • Bugs grotescos