Sabe aquela cena de 300, quando o Rei Leónidas atira um mensageiro em um poço, antes proferindo a célebre frase “This is Sparta!!!” ? Naquele momento, com o gesto, ele deixava claro que Esparta era “algo mais”.

Ser um guerreiro de Esparta era não se submeter aos desmandos, era lutar até o fim com custo da própria vida se necessário, era passar por um treinamento rigoroso, era ser o mais resistente dos combatentes era…ser espartano acima de tudo.

O novo God of War carrega um pouco desta filosofia. Vence todas as desconfianças, mantém preservado o valoroso DNA da franquia e ainda assim oferece mais do que se espera dele. Kratos não salta? “Isso é Esparta!”, golpes furiosos com o Machado de Leviathan refutam todas cismas; Kratos não nada? “Isso é Esparta!”, um escudo multiuso bloqueia ataques e logo em seguida derruba as criaturas com um golpe; A câmera mudou? “Isso é Esparta!”, o guerreiro abre a garganta de uma bruxa violentamente, espalhando sangue e chamas para todos os lados…com direito a um close especial; E este moleque aí ? “Isso é Esparta!”, a Fúria Espartana, aliada aos ataques combinados do menino manda um trasgo diretamente para as profundezas de Helheim.

É God of War, maior, melhor e muito mais amadurecido, com ótimas mecânicas de jogabilidade, cenários belíssimos para se explorar, mitologia incrivelmente rica em detalhes e uma narrativa muito bem construída para ser um elo entre o passado de vingança e o futuro de recomeço.

E isso fica escancarado logo na primeira grande batalha do jogo. Os fãs da franquia logo se sentirão “em casa”. “Isso é, definitivamente, Esparta!”. Uma luta de vários estágios, com cenas de corte e jogabilidade ininterruptas e muita ação. E logo ali, fica claro o que está por vir.

O guerreiro espartano que conquistou o Monte Olimpo mudou. Nesta mesma luta é notável que a mente de Kratos não está apenas concentrada na batalha. Ele avalia melhor a situação, fica atento ao bem-estar do seu filho e mantém controlada toda sua fúria. Mas ainda há irritação…só que agora canalizada para um melhor emprego das habilidades.

Este primeiro encontro é uma fotografia clara da nova proposta: Kratos mais equilibrado, ainda bem reservado, atormentado por fantasmas do passado, um garotinho com o ímpeto de provar o seu valor, situações pouco esclarecidas e um gameplay feroz, digno da série. O Deus da Guerra voltou.

Um novo começo

Há de se convir que o estúdio foi audacioso em propor uma nova abordagem para uma série tão cultuada e querida pelos fãs. O risco de, talvez, colocar algumas manchas na franquia era relativamente alto.

Este novo God of War é uma brilhante amostra de como é possível preservar o legado, ao mesmo tempo em que caminha em outra direção. Desde a abordagem do enredo, as dinâmicas de jogabilidade, tudo se encaixa hermeticamente.

E há inteligência na progressão. O jogo não entrega tudo de bandeja. Na verdade o charme dele é justamente no elo de ligação. Funciona quase como uma transposição gradual. Até porque, sair de uma mitologia e adentrar em outra não é algo exatamente fácil.

O próprio slogan do game deixa claro: um novo começo. E isto pauta toda experiência. A descoberta de novas histórias, novas lendas e muito mais alem disso. O início de uma outra jornada tão ou mais poderosa que as anteriores.

Kratos, pai novamente, vive como um humano, nos distantes reinos nórdicos em uma era pré-viking, onde criaturas mágicas e deuses convivem em uma colisão de misticismos e simbologia. Foi uma escolha do próprio guerreiro ficar ‘oculto’….talvez para tentar deixar para traz sua história de vingança.

God of War: Kratos e Atreus
Kratos é pai de um inteligente menino.

Só que a rotina está bem próxima de sair dos eixos. Como último desejo, a sua recém-falecida esposa pediu para que suas cinzas fossem levadas até a montanha mais alta. E é aí que a jornada começa.

Parece uma missão fácil para aquele que já foi protagonista da derrocada dos Deuses do Olimpo. Mas há um porém: Atreus. Diferente do pai, o garotinho não domina a Arte da Guerra. E há ainda um complicador: ambos são praticamente estranhos. Embora seja pai, o semideus não é dos mais afetuosos. Corre em suas veias toda tenacidade de alguém que foi treinado única e exclusivamente para combater.

Este é o segundo ponto-chave: enquanto a migração de universos alimenta o enredo, a construção do relacionamento entre pai e filho é o que rege e posiciona esta nova perspectiva de narrativa.

Há aqui duas necessidades que frequentemente se colidem. Ambos querem provar algo. O espartano precisa lidar com esta nova situação, enquanto tenta mostrar que para sobreviver aos implacáveis acontecimentos é necessário muita concentração e foco. Já Atreus quer, desesperadamente, provar seu valor.

Juntos eles se completam. Kratos é a força, estratégia e experiência. Atreus é a jovialidade, hábil com línguas. Avançando, o menino traduz runas, símbolos, explica sobre os reinos, deuses e divindades.

Kratos e Atreus de frente a um quadro.
Atreus é hábil com línguas e explica ao pai o que vê nos símbolos.

A Santa Monica soube criar um relacionamento autêntico, profundo e emocionante. Aos poucos você percebe que existem três pessoas neste trato: Kratos se aproximando vagarosamente do pupilo. A segunda pessoa é o filho, querendo atenção e repostas sobre a ausência do pai. Há toda uma áurea de mistérios em torno disso. E a terceira é o jogador que correlaciona os fatos, liga os pontos e constrói por si mesmo o seu entendimento.

Embora seja um pouco cadenciado, o ritmo está na medida certa. Permitindo que todos absorvam cada um dos momentos à sua maneira. God of War é um jogo muito mais maduro, introspectivo e imersivo. Esqueça aquela pegada alucinante de God of War 2 e 3, onde um furioso Fantasma de Esparta vai escalando o Monte Olimpo passando por cima de tudo.

This is Sparta!

Tudo novo, mas estranhamente familiar. Você entende isso quando está jogando. Os combates são frenéticos, com ocasiões de tirar o fôlego. Ao rachar a cabeça de um troll com o Machado de Leviathan você sabe que está diante daquela açucarada versatilidade de God of War.

É singular perceber isso. É diferente, mas com o mesmo gostinho. Talvez este seja o maior mérito de toda obra. Mudar e ainda sim preservar as sensações.

Uma câmera mais intimista proporciona encontros quase que individuais, mesmo com vários inimigos na tela. E aquela alcunha de “só apertar quadrado” ficou lá na Grécia, junto com os outros jogos.

Kratos e Atreus na Montanha Gelada.
O Machado de Leviathan é versátil e uma excelente arma de guerra.

Este novo exige que os jogadores aproveitem mais profundamente as mecânicas. Você conta com o já mencionado Machado que pode ser atirado (mirando com L2 e atirando com R1 ou R2) e convocado no melhor estilo Thor dos Vingadores, um escudo, esquiva e Atreus como um exímio suporte.

Você até pode partir direto para luta, mas na maioria das vezes é preciso pensar minimamente em um conjunto de estratégias, já que cada combate é quase único e repleto de opções.

E aí começam florescer a profundidade das opções. Você pode equipar runas no Machado, no escudo e no arco de Atreus. Cada uma das escolhas oferecem ataques especiais diferenciados que podem ser melhorados conquistando XP.

As armaduras – adquiridas com os anões – também seguem o mesmo esquema: peitoral, pulsos e cintura são passíveis de melhoramentos com experiência. Em cada uma delas pode-se adicionar runas ou pedras mágicas que alteram os quesitos de força, vitalidade, defesa, etc.

E claro, as Árvores de Habilidades para todas as respectivas armas. São muitos e diversos talentos que tanto Kratos como Atreus podem aprender durante a jornada.

Tudo isso, confere ao jogo um quê de RPG muito bem implementado. Mas ele não é puramente um jogo do gênero. Apenas pega emprestado algumas características que casam muito bem com a proposta.

O divertido mesmo é colocar tudo isso em prática. Fazer diversas mistura de ataques com escudo, machado e com os punhos. E quando a barra de energia se enche você pode acionar a “Fúria Espartana”, uma sequência avassaladora de golpes arrasadores.

Não seria God of War se não contasse com uma certa dose de desafios. Mesmo em sua dificuldade mediana o jogo faz com que você passe por apertos, com momentos mais tensos. A boa notícia é que Atreus realmente é bem útil nos combates. Em nenhum momento ele fica entre Kratos e uma criatura.

O menino é acionado através do botão quadrado, disparando flechas ou fazendo um poderoso ataque rúnico. É possível até combinar ataques, com o menino segurando o inimigo e você golpeando com o Leviathan.

Detalhe é que a câmera se posiciona um pouquinho mais afastada nos combates. Isso permite um campo de visão considerável. Além disso, existem os indicativos sobre ataques nas costas (Atreus geralmente avisa de qual lado está vindo a ameaça; existe uma setinha indicativa).  Ademais, pressionado o D-Pad para baixo, o personagem faz um giro rápido para outro lado. O que permite uma resposta bem imediata a um golpe.

Outra boa adição é o escudo. Ele serve como um elemento de bloqueio e ataque. Bloqueando no momento exato, é possível executar um contra-golpe (parry). Em ataques rúnicos, com o escudo, você consegue dispersar um grupo de oponentes, por exemplo.

God of War é bem diverso em formas de combates. O que o torna moderno, dinâmico e repleto de capacidades. Há sempre algo a ser testado, uma habilidade a ser entendida, uma opção a ser explorada.

Os baús estão de volta. Mas não existem mais orbs de sangue.

E mesmo que Kratos pareça mais ‘pesado’, ele ainda assim é flexível e brutalmente furioso. Está tudo aqui: combos devastadores, batidas poderosas e até aquelas finalizações onde Kratos rasga violentamente o inimigo.

Merece elogios ainda o posicionamento da câmera. Sobre os ombros, ela se ajusta muito bem, mesmo em situações com trolls gigantes. O único ponto é quando você fixa um alvo. Em ocasiões com muitos inimigos na tela (há várias situações destas), fixar uma posição faz com que você perca um pouco da visão periférica, criando situações de vulnerabilidade.

Nove Mundos

Ragnarök, Odin, Thor, Mjolnir, Valhalla, Aesir, Vanir, etc são alguns dos nomes comuns na Mitologia Nórdica. Você os ouvirá com frequência durante a viagem de Kratos e Atreus.

Um dos pontos de maior de destaque de toda saga God of War era a forma como os elementos da Grécia Antiga eram retratados e ligados uns aos outros. Este novo não é diferente neste sentido. Toda ambientação é repleta de ornamentos, símbolos, histórias paralelas e muita, muita informação extra.

E já adiantamos uma dica mais que especial para você: antes de embarcar no jogo, leia o nosso artigo sobre a Mitologia Nórdica. Com ele você estará totalmente ambientado nesta nova perspectiva. Use-o como um guia de bolso!

God of War é um jogo bem grande. São vários reinos e localidades a serem visitadas. Para se locomover entre um e outro lugar, você usa barcos. Existem vários deles espalhados pelos ambientes.

Kratos e Atreus em um barco.
O deslocamento entre as localidades é através de barcos.

É uma proposta linear, mas com vários elementos já vistos em jogos de mundo aberto. Você conta, por exemplo, com o mapa de Midgard (reino dos humanos), onde passa por ruínas, cavernas, montanhas geladas, florestas e muito mais.

Toda ambientação é requintada de ingredientes: animais menores andam vagarosamente, gaivotas e até os Corvos de Odin compõem a biodiversidade.

Além de servir como uma forma de transporte, os momentos nos barcos são ótimas oportunidades para ficar por dentro das fantasias nórdicas. Mímir por exemplo, conta histórias interessantíssimas sobre os deuses e alguns dos acontecimentos. Além disso, Kratos e Atreus se tornam mais íntimos nestas viagens. O espartano, mesmo seco nas palavras, sempre tem um conhecimento sobre combates útil a ser repassado. Não que ele seja muito comunicativo, mas oferece ensinamentos valiosos.

Não é mundo aberto. Os caminhos ainda são bem retilíneos, todavia eles são bem maiores e permitem que você explore os ambientes, descubra segredos, abra baús em busca de itens lendários, acesse locais para coleta de recursos e mais. Claro que é sempre possível seguir diretamente sem rodeios, mas a investigação sempre oferece boas recompensas para melhorias de equipamentos – alguns exigem itens bem específicos para confecção.

O próprio jogo incentiva as buscas. Em alguns momentos você até ouve o menino dizer: “pai, podemos ir para nosso objetivo, mas se quiser explorar por aí eu topo!”.

E se você gosta de aproveitar os extras, ficará feliz em saber que o jogo conta com muitas missões secundárias e até desafios opcionais, onde você enfrenta alguns chefes bem poderosos, principalmente as Valquírias.

E como em todo God of War, há os quebra-cabeças de cenários. Alguns mais fáceis e outros mais complicadinhos. Mas nada muito complexo, só os que exigem a procura por selos. Muitos ficam escondidinhos, sendo que determinados não são acessíveis de imediato, exigindo o conhecimento de habilidades específicas.

Desafios opcionais são boas opções para prolongar o gameplay.

É um jogo robusto, cheio de nuances adicionais. Sem dúvidas o maior e mais complexo de toda saga.

E claro, os aspectos técnicos estão formidáveis. Visualmente, o jogo é lindíssimo, talvez um dos melhores do PS4 até agora. E a sonoplastia? Quando você entra em batalha, logo começam canções instrumentais de fazer ‘vibrar os ouvidos’. Há um momento em particular (sem spoilers aqui…fique tranquilo) em que os fãs certamente se arrepiarão com o conjunto dos acontecimentos.

Outra boa notícia, desta vez para os brasileiros. A localização está incrível. A potente voz de Ricardo Juarez é merecedora de muitos elogios. Mas além dele, as demais também estão ótimas. Mais um belíssimo trabalho da PlayStation Brasil.

O Deus da Guerra

God of War é o que se espera que ele seja: um jogo épico. A Santa Monica Studio conseguiu ir além de si mesma e nos oferece uma experiência sem igual, aproveitando o retrospecto da franquia, adicionando novidades, modernizando as mecânicas e transmite uma poderosa, profunda e consistente narrativa.

Este novo recomeço, no entanto, serve como um primeiro passo e não entrega todas as respostas. Isso, talvez, possa não satisfazer a todos jogadores, mas é bem ao estilo da série que só foi ‘concluída’ em 2010 com God of War 3.

Os deslizes são bem poucos e pouco são notados. Talvez um tempo grande para loading na tela inicial, ou quando você morre e precisa esperar um tempo longo para recomeçar e, por fim, uma pequena queda de frames em uma sala onde ficam os anões ferreiros. Mas não há questionamentos técnicos a serem feitos. Dentro daquilo que ele se propõe a fazer, é sim um esplendor. Considere que jogamos no PS4 ‘padrão’ e não houve quaisquer falhas (além dos já mencionados).

Kratos está em sua melhor forma e o que virá a seguir promete ser ainda mais intenso. God of War é mesmo um novo recomeço…um renascimento. O Deus da Guerra voltou melhor do que nunca.

*Cópia do jogo cedida pela Sony.

Avaliação
Geral
10