Horizon: Zero Dawn é aquela típica experiência apaixonante. Desde os primeiros minutos, o jogo encanta. Seja pelo visual de altíssimo nível, pelos mistérios de um mundo pós-pós apocalíptico, riqueza e capricho dos detalhes ou talvez pelas requintadas mecânicas. Tudo impressiona.

O título do game também serve como uma espécie de paralelo para o próprio estúdio. Se antes a Guerrlla Games era notoriamente conhecida como responsável pela serie Killzone, de agora em diante, será lembrada como equipe que deu vida a um dos jogos mais fascinantes da oitava geração de consoles. Um verdadeiro “novo amanhecer”.

Zero Dawn agrega muitos acertos e erra muito pouco. Muito pouco mesmo. O principal acerto, entre tantas tacadas excelentes, está nos combates: absolutamente brutais. Entrar em uma batalha é garantia de momentos únicos, sublimes e que justificam as promessas do slogan da PlayStation – Viver em Estado Play. E, ao final de cada epopeica luta, com os nervos à flor da pele o jogador desejará novamente uma nova dose dessa droga viciante.

Ao longo de saborosas 50 horas de gameplay, ficou claro porque o jogo levou seis anos para ficar pronto. As criaturas, todas sem exceção, singulares entre si, mundo imenso, variedade de missões paralelas, elementos de RPG muito bem implementados e ação digna de Uncharted. Tudo isso regrado a um enredo que mescla misticismo, culturas e boas doses de sci-fi.

Horizon: Zero Dawn desfila elegância e conquista um sonoro 10.

A Exilada

Se até agora Aloy não havia sido citada, não foi por demérito. Resumi-la em poucas palavras é difícil. A personagem é elemento central de todo jogo. Protagonismo, ao pé da letra.

Exilada da sua tribo em virtude de um nascimento desconhecido, a menina aprendeu desde muito pequena a enfrentar os perigos do mundo. Compreendeu, também, que para sobreviver ao universo distópico, onde os humanos não são mais a raça dominante, precisa agir mais com inteligência do que com uso da força da bruta.

E a narrativa da obra se constrói toda em volta da ruiva que tem como principal característica a curiosidade. O propósito de Aloy é descobrir os mistérios da sua origem. Contudo, essa busca a leva a descobertas muito mais profundas e interconectadas. Seu pretérito revela informações do presente e é salvaguarda para o futuro.

A aventura começa com uma sardenta ainda criança, treinando exaustivamente para uma competição que, se vencida, faria com que ela fosse aceita como uma integrante da Tribo dos Nora. Contudo, após uma sucessão de episódios no esperado dia, a jovem é enviada como Emissária para além mundo na tentativa de encontrar respostas.

O jogo começa acertando logo cedo – instigando a busca pelas primeiras respostas – oferecendo poucas informações sobre o universo e direcionando para os primeiros acontecimentos importantes.  Cada descoberta é uma relevante peça para um enorme quebra-cabeças. O enredo em si e como a moça se conecta a ele não é complexo. Contudo, é muito bem construído.

Na jornada, amizades são criadas, tribos e cultismo rivais são evidenciadas e outros personagens são introduzidos na trama.

A terra já não é nossa

Horizon: Zero Dawn se passa a milhares de anos no futuro. Toda civilização como conhecemos desapareceu. As pessoas vivem através de um sistema tribal – vida em cavernas, uso de peles de animais, veneração a deuses, manufatura de itens, etc. Salvo algumas estruturas metálicas, nada sobrou do mundo.

No topo da cadeia alimentar, agora estão poderosas máquinas, muito semelhantes as espécies do período cretáceo ( 100 milhões de anos atrás ). Em resumo, dinossauros mecanizados.

Conforme progresso, a história revela a verdade sobre os fatos e como tudo chegou ao estado corrente. As explicações são escalonadas e muito ponderadas. Recuperações de gravações em áudio e texto detalham como a terra evolui no sentido de máquinas autônomas e regrediu em convivência. Nem tudo é entregue através de diálogos e cutscenes, no entanto. Os jogadores devem também tentar ir além, vasculhando os ambientes. Muitos detalhes preciosos – como o porquê de máquinas dinossauros – são oferecidos através destes complementos.

Horizon Zero Dawn – Ave Tempestade

E este mundo povoado por robôs e humanos é absolutamente surreal. A ambientação salta aos olhos de imediato, saciando a fome por liberdade, já que leva um tempinho até que o open-world se faça presente.

Cada área, cada localização, cada terreno, cada local tem sua particularidade. Planícies, vales, montanhas, florestas, desertos, picos gelados e outras regiões são diferentes em quase todos os aspectos. E são mutáveis. O clima é dinâmico. Nevascas e neblina podem surgir, tempestades de areia dificultam a visibilidade e chuvas torrenciais deixam tudo mais bonito e impressionante.

O habitat é quase que completamente selvagem. Mesmo em locais ainda onde se encontram ruínas dos Antigos – antiga sociedade (nós) – tudo está tomado por vegetação.

Animais robóticos e onde habitam

O grande charme e mistério do jogo, indiscutivelmente, são as máquinas. No total, são 20 espécies diferentes, totalmente únicas.

Algumas, como Galhardos, andam em manadas e fogem quando Aloy se aproxima. São encontradas em regiões com pastos e planícies. Sim, os robôs comem grama, bebem água, etc.

Outras, as poderosíssimas Britadeiras, robôs que entram e saem da terra, desferem ataques de longa distância (atiram pedras que coletam do chão) e raios lasers, aparecem somente em desertos.

Horizon Zero Dawn – Mapa

Nos picos gelados, a Ave Tempestade reina nos céus. Lá do alto, atira ataques sonoros e gelos mortais. Só o grunhido do gigante pássaro causa arrepios.

Cada região de Horizon é cuidadosamente desenhada e habitada por tipos diferentes. Ao jogá-lo, não seria diferente compará-lo com algum documentário do Animal Planet. O jogador, enquanto controlador da personagem, é apenas um convidado humilde neste mundo ambicioso, cheio de vida e rico em detalhes.

Zero Dawn clama por ser explorado, estudado e apreciado. É mais um daqueles jogos que passamos muito tempo tentando encontrar o close para o Modo Fotográfico. Sempre há um vale desconhecido, um lugar perfeito para apreciar o pôr do sol.

Brutal

Se ambientação magnífica e animais robóticos imponentes são os ingredientes especiais de Horizon Zero Dawn, os seus combates são o tempero especial que lhe confere um sabor único. São eles que o colocam em outro nível.

HZD é um RPG de Ação ou talvez um jogo de Ação com elementos de RPG. Ambas as abordagens são coerentes. Assim como nos seus pares, o jogador pode encontrar diversos tipos de melhorias para equipamentos, com variações bem interessantes entre eles.

E as opções vão além do tradicional arco e flecha: estilingues, lanças, armadilheiras, lança-cordas e chocalho são possibilidades, sendo que cada uma delas conta com variações e modificações para cada tipo de abordagem. Tudo isso é comprado através dos muitos comerciantes presentes no jogo. Como praxe em quase todos RPGs do mercado, os mercadores oferecem itens diferentes, dependendo do local.

E é no momento de fazer uso dos brinquedinhos, que as coisas ficam realmente interessantes. Os combates em Horizon são incríveis, com boas doses de dificuldade.

Aloy é bastante frágil. Mesmo com um traje mais rebuscado, a menina morre com facilidade para quase todos os inimigos. E isso faz parte da experiência.

As máquinas são arrasadoras. A força bruta é sua principal fonte de dano. Quase toda investida certeira de um oponente acaba em re-início, não por incompetência do jogador, mas sim pelo desenho das batalhas. Então, as lutas são quase sempre muito dinâmicas e regradas em boas doses de adrenalina, esquivas e estratégia.

Aloy conta com um gadget chamado de Focus. Ele analisa as fraquezas dos inimigos, além de poder traçar o provável caminho destes. Com ele, é possível saber por exemplo quais partes são vulneráveis a quais tipos de elementos (fogo, choque, congelante, etc).

Mesmo sabendo disso, é um erro atacar diretamente. Primeiro porque os inimigos sempre estão acompanhados de outros, muitos vezes de classes diferentes. Então, uma estratégia pensada para um Borrifante de Fogo não se adequa a um Devastador.  Segundo, porque o revide é absurdamente potente.

Com base nisso, o jogo oferece possibilidades e combinações chamativas. O uso de armadilhas por exemplo, é uma ideia que gera bons resultados.

O jogador pode plantar artefatos explosivos ao longo de uma passagem estreita e então tentar atrair uma criatura para a arapuca. Quando o bicho for fisgado, um ataque crítico pode causar danos consideráveis. Mesmo que não liquide imediatamente, ajuda bastante.

Diante disso, você deve ter percebido que a inteligência artificial das máquinas não é das mais incrementadas. O que torna tudo tão complexo é a voracidade dos combates. Na maioria deles, os jogadores não terão tempo para refletir sobre isso (inteligência). Os robôs atacam muito rapidamente, deixando margens estreitas de interpretações.

E como mencionado, eles são viciantes. Você entra em uma luta, ela pode ser prolongada por vários minutos, já que mais inimigos são atraídos e tudo pode evoluir para ferrenhas batalhas.

Uma das criaturas mais mortais do jogo.

Como não se impressionar quando um Falquino, uma das aves do jogo, é atingida por uma certeira flecha de fogo e, como um meteoro, se estatelar no chão, causando dano a outras criaturas que estavam próximas !?

Mas o jogo não é 100% focado em combates alucinantes. Ele conta ainda com um viés de furtividade muito bem executado.

Aloy também é uma exímia caçadora. Ela se esgueira entre locais, anda sorrateiramente entre relvas e consegue desferir golpes contra inimigos mais desatentos. Principalmente os tribais rivais.

Roteirização

A Guerrilla Games desenvolvia FPS lineares. A migração para uma nova IP de RPG de mundo aberto trouxe consigo enormes desafios. Felizmente, a estreia do estúdio no segmento foi com o pé direito.

E não teria como entrar no mérito sem citar o grande expoente do gênero: The Witcher 3: Wild Hunt. O game da CD Projekt RED se tornou referencia por oferecer aos jogadores missões de história muito bem roteirizadas, incrementais e progressivas, de modo que a forma como termina é bastante diferente do começo.

E Horizon Zero Dawn segue pelos mesmos passos, tanto nas missões do enredo, como nas secundarias e tarefas.

As quest principais são elaboradas e vão lançando acontecimentos da humanidade, sobre como as máquinas dominaram o mundo, deixando os humanos renegados as convivências mais rudimentares. O progresso é bastante cadenciado, com objetivos que se prolongam em sub-missões que podem desencadear outros eventos.

A narrativa é bem organizada, instiga os jogadores a explorarem o mundo não somente para entender o passado de Aloy, mas também a re-formação do mundo. Houve muito zelo do estúdio neste aspecto.

Cabe aqui uma boa notícia àqueles que estavam curiosos sobre os sistemas de missões secundarias. Elas são realmente importantes, não se resumindo a ir de um ponto a outro.

Um bom exemplo acontece logo no início da aventura, quando a caçadora sai dos portões do Enlace, primeira área do jogo. No local, o vigia explica que um grupo de soldados foi emboscado e pede para que Aloy ajude a encontrá-los.

Então, um local é marcado no mapa e o jogador decide se quer explorar a missão ou não. Aceitando o desafio, a empreitada vai evoluindo em importância, ganhando novos incrementos, evidências e começa a se conectar ao enredo principal de forma bastante assertiva. Você logo percebe a importância de tudo. É gratificante saber que as missões paralelas são complementares, expandindo realmente a trama.

Outro aspecto, inclusive mencionado anteriormente pela equipe de desenvolvimento, é o poder de escolha dos jogadores. Em alguns casos, é possível tomar decisões importantes, como quem vive ou morre. Mesmo que a liberdade não interfira diretamente no enredo principal, ele impacta em muitas ocasiões.

Horizon Zero Dawn – Escolhas

E como bem disse Hermen Hulst, quando conversamos com ele na última semana, Horizon não é o tipo de jogo que você termina em um único fim de semana. Mesmo que os jogadores sigam diretamente para todas as missões principais, é necessário incrementar os equipamentos e conquistar melhores itens, principalmente para enfrentar as missões finais. Isso demanda tempo e paciência.

É do Brasil!

HZD está chegando totalmente localizado em nosso idioma, isso inclui dublagem e uma certa regionalização interessante.

As vozes foram muito bem escolhidas e fazem com que o game figure entre os melhores trabalhos de localização. Você certamente irá reconhecer as vozes dos personagens principais, muito presentes em filmes, desenhos e seriados.

Alguns nomes como Wendel Bezerra (Goku) e Alfredo Rolo (Vegeta) fazem parte do cartel. Além deles, uma das NPCs é dublada pela voz brasileira do Naruto. Só essa ficou um pouco estranha.

Horizon Zero Dawn – Totalmente Localizado.

Outro aspecto é a tradução dos nomes das máquinas. Elas não ficaram em inglês e alguns nem são correspondência exata. Um exemplo é o Pescoção, aquele dinossauro gigante. No game, ele serve como atualização do mapa, assim como as torres de Assassin’s Creed.

Alegria e felicidade com certeza

Seria presunção deste que vos fala sacramentar que você é obrigado a adquirir este jogo. Não, você não é. A intenção também não passa nem perto disso. Entretanto, dentro do nosso sistema de avaliação, Horizon: Zero Dawn atingiu o mais alto patamar.

A Guerrilla Games oferece a você, nobre jogador, uma experiência muito especial. Através de um universo riquíssimo em detalhes, uma narrativa muito bem construída, mecânicas desafiadores e eficientes e todo uma contextualização agradabilíssima, o jogo entrega tudo aquilo que se propõe a fazer.

É fato que ele não passa ileso por duas falhas: o framerate oscila em alguns poucos momentos e o tempo de loading, quando se morre, viagem rápida e carregamento inicial é um pouco alto. Mas esta é uma obra grandiosa demais para ser ofuscada.

Se no universo PlayStation, atualmente temos quatro grandes estrelas (Uncharted, The Last of Us, God of War e Gran Turismo), Aloy chega para brilhar como a quinta estrela. A quinta estrela de um jogo cinco estrelas.

Avaliação
Visual
Jogabilidade
Enredo
Sonoplastia
Diversão