Marvel vs. Capcom: Infinite: Vale a Pena?

Marvel vs. Capcom Infinite chega ao PlayStation 4 com a proposta de oferecer combates alucinantes e um enredo referendado pela Marvel.

Na sombra do imponente legado de ótimos crossovers oferecidos pela Capcom no passado, Marvel vs. Capcom: Infinite chegou ao PS4 sob olhares ressabiados da comunidade. A ideia era reformular o já experimentado sistema de combates introduzindo as Jóias do Infinito como uma camada extra de jogabilidade, apresentar um novo visual e ainda justificar a ausência de personagens em uma campanha com a assinatura da Marvel.

Mas nem tudo saiu como esperado, justificando então as genuínas preocupações dos fãs. Se você é daqueles que prefere enxergar através de uma perspectiva positivista, fica a consideração: “poderia ter sido pior“.

O jogo não é ruim, de modo algum na verdade. Ele é bastante competente em oferecer mecânicas refinadas, um excelente uso das tais Jóias e ainda sim continua com o alicerce fundamental da franquia: combates incrivelmente alucinantes com variações, combinações e dinâmicas muito divertidas.

Mas esperava-se mais, não só pela herança da saga, mas também na união de dois gigantes universos. Afinal, Marvel e Capcom tem muita história para contar. Fica a sensação de que houve um desperdício de oportunidade.

Quase-Vingadores

Com a assinatura da Marvel Entertainment e o alarde da Capcom, o modo estória prometia uma experiência combinada que fizesse jus aos mais recentes blockbusters cinematográficos da empresa de quadrinhos.  E em um primeiro momento até é possível acreditar nisso, já que os Vingadores são os destaques do enredo, mas logo você vai sentir o gostinho do marasmo.

A campanha não empolga, mesmo que em alguns momentos até tenha seus pontos altos com passagens engraçadas. A narrativa é apressada e a introdução de vários dos heróis é completamente descompassada. Eles simplesmente aparecem ali sem um motivo aparente.

Tudo gira em torno das Jóias do Infinito. Se você acompanha as produções cinematográficas da Marvel certamente vai se lembrar delas. As pedras preciosas aparecem, de várias formas – geralmente como cubos mágicos -,  nos filmes do Thor, nos Vingadores, em Capitão América e em Guardiões da Galáxia.

No game, o super-vilão Ultron, a consciência artificial maligna descoberta por Tony Stark em Vingadores: A Era de Ultron, se funde com Sigma – vilão de Mega Man – criando o mega-vilão Ultron Sigma, uma criatura capaz de derrotar facilmente qualquer outro ser. Nem mesmo o poderoso titã Thanos é capaz de detê-lo.

Ultron Sigma espalha um vírus mortal alastrado rapidamente pelos multiversos de ambos universos. A única chance de parar a infestação e derrotar o super-maléfico é reunir as Jóias do Infinito e contra-atacar. Mas não será nada fácil, já que as pedras podem corromper seu portador.

O ponto falho está nos enfrentamos desconexos, nas aparições sem contextualização e no mau aproveitamento de vários intérpretes. Fora ainda o enfadonho protagonismo (ou a falta dele) de alguns. Frank West continua tão sem graça como em Dead Rising; Sir Arthur é esquecível; Firebrand ídem; Zero fraco, e por aí vai.

Mesmo com a inclusão de novatos como Carol Danvers, a Capitã Marvel, ainda falta um tempero especial. A narrativa se arrasta em vários momentos. Você apenas torce para que tudo acabe e possa partir para pancadaria.  E após três horas ela realmente acaba.

Mas ainda sim, observando o copo meio cheio, é possível extrair momentos interessantes. Rocket Raccon e Mike Haggar servem como alívio cômico, fazendo boas participações e piadinhas até que engraçadas. O interesse de Rocket em X (Mega Man) por exemplo, é bem legal.

Mas é só isso.

E a “cereja no bolo” se concluí com o último chefe. Em uma batalha ausente de criatividade, você se depara com uma transformação do Ultron Sigma que ocupa boa parte da tela. Não é difícil, principalmente depois que seus movimentos são compreendidos.

E isso nos remete a um dos principais problemas do game. A ausência de personagens que vieram, desde os primórdios, acompanhando a série. Os mutantes fazem muita falta aqui.  A Capcom tentou – em vão – substituir os X-Men com uma ostensiva participação dos Vingadores, com pitadas de Guardiões da Galáxias – Gamora, frisa-se, é uma excelente personagem. E mesmo que deixemos de lado Wolverine e cia, ainda assim faltam nomes.

Quarteto Fantástico, Deadpool, Rival Schools, Inumanos, outras franquias da Capcom como Resident Evil (Jill, Wesker, Claire), Final Fight, Dino Crisis, Bionic Commando, e afins, poderiam brilhar. Mas a companhia se valeu de várias opções datadas.

O peso das ausências é tão grande que o design do cast de lutadores presentes, de gosto um pouco duvidoso, acaba não sendo um ponto tão ruim. Houve uma melhora substancial em relação a versão demonstrativa. O rosto de Chun-li por exemplo, agora é aceitável.

Mas o pior: figuras bacanas como Pantera Negra, Viúva Negra e Venom virão por DLC, comercializado separadamente. O que em jogos anteriores era desbloqueado gratuitamente (quem não se lembra dos personagens secretos?) virá somente através de mais investimentos. Uma prática que apesar de já ser arraigada, é intragável.

MARVEL VS. CAPCOM: INFINITE: lista de personagens.

Isso acaba por afastar muitos jogadores que se interessariam pela proposta, mas que acabam aguardando por uma versão Ultimate ou Definitiva.

Isso é Marvel vs. Capcom

Em contra-ponto aos desníveis do modo campanha, as mecânicas de jogabilidade e as novas adições jorram muita luz na escuridão. Marvel vs. Capcom: Infinite é uma experiência de embates muito competente.

Mesmo que nem todas as melhorias tenham sido positivas – o jogo está mais cadenciado, os saltos não são tão mais mirabolantes, a velocidade diminuiu um pouco e poucas falas criativas dos personagens pré e pós lutas – tudo funciona muito bem por aqui.

Ao contrário do MvC 3 onde era possível formar equipes de três lutadores, em Infinite a Capcom optou por oferecer embates de 2 vs. 2. A princípio, a ideia era bastante questionável. Talvez pela limitação no line-up, havia algo de estranho nisso, mas tudo se encaixa após algumas horas de pancadaria.

Agora, antes dos confrontos, você deve optar pela seleção de uma dentre seis opções de Jóias do Infinito: Reality, Power, Space, Time, Mind e Soul. Cada uma delas pode ser aproveitada de uma maneira.

A pedra do Poder lança um ataque poderoso, a do Espaço traz para si, no melhor estilo Get Over Here, o adversário, a do Tempo oferece uma supervelocidade, a Alma rouba HP do adversário… Todas bem distintas entre si.

A adição proporciona a elaboração de estratégias peculiares. Você passa a escolher sua equipe com base em características e na aplicabilidade de cada Jóia. Talvez suprir uma necessidade que uma dupla tenha ou mesmo maximizar suas potencialidades. Um novo, amplo e efetivo horizonte de possibilidades.

E, conforme você golpeia, uma barra vai se enchendo. Estourando, você tem a Tempestade do Infinito, uma elevação temporária dos poderes da Joia. E é aí que o jogo proporciona ainda mais recursos. Usando a Tempestade do Infinito da Alma por exemplo, você pode reviver um companheiro tombado e, juntos, partirem vorazmente para cima do oponente; outra como a do Espaço cria uma espécie cubo de energia, prendendo os adversários.

MARVEL VS. CAPCOM: INFINITE: Tempestade do Infinito acelera os combates.

E bem, estamos falando de Marvel vs. Capcom. Uma franquia em que um dos destaques eram as combinações devastadoras de golpes. Isso não mudou e continua sendo o esplendor das partidas.

Mesmo que as pelejas estejam um tanto mais lentas, ainda assim é impressionante ver como a junção de vários comandos proporcionam momentos singulares, com explosões e dilaceramento de energias alheias. Some isso a possibilidade de trocar de lutadores a qualquer momento e, dependendo da ocasião, conseguir emendar ataques com eles. Enquanto um lança o adversário ao alto, desferindo golpes furiosos, o segundo entra no ‘olho do furacão’ e dá prosseguimento nos ataques.

É interessante que mesmo composições menos harmônicas de duetos podem criar um arranjo furioso de ataque. Tudo depende de como você explora as características de cada um, considerando ainda as gemas selecionadas.

Outro ponto bastante positivo é acessibilidade para os iniciantes. Na prática, o sistema de combos automáticos –  basta você pressionar  ‘quadrado’ repetidas vezes – foi uma decisão muito inteligente. Serve como um pontapé inicial para a invenção de ataques interessantes. E mesmo que você talvez até argumente que ‘facilita demais’, a realidade é outra. Os jogadores mais experientes agem de outra forma e sabem exatamente como evitar estas artimanhas.

Essa opção é importante haja vista a natureza punitiva das mecânicas. Quando você se depara com um veterano, um erro é quase irreversível, já que não haverá muitos espaços para você revidar aqueles combos ultra destrutivos. Evita que você apanhe sem ao menos uma mínima oportunidade. Quem já experimentou os jogos da série sabe como é terrível ser castigado por combos de 70 hits consecutivos.

Também ainda, destaque para o equilíbrio do plantel. O jogo chegou refinado e muito balanceado neste aspecto. É claro que um ou outro acaba sempre destoando, mas nada que faça você sentir raiva.

É completo!

Dessa vez a Capcom não cometeu o ultraje de nos oferecer um jogo incompleto (Street Fighter V, estamos falando de você!). Infinite é repleto de opções, mesmo que algumas não sejam exatamente uma unanimidade.

Modo Campanha, Arcade, Missões, Online, Treinamento e Versus. Você vai encontrar aqui um jogo recheado de possibilidades. Mas sempre pontuando os pormenores de cada alternativa. O Arcade por exemplo, é bem sem graça e não agrega muita coisa.

Destaque para o Missões, uma opção onde você pode conhecer cada personagem individualmente e estudar as varias combinações de combos. São 10 lições para cada herói ou vilão, algumas simples e outras muito desafiantes, que exigem bastante dedicação.

O netcode também se mostrou efetivo. Talvez herança dos aprendizados do SFV, o online funciona de forma apropriada e é a melhor opção para jogatinas – afinal, Arcade e Campanha não são lá essas coisas. Ranqueadas, Casuais,  Liga Iniciante e os Lobbys são ótimos caminhos para as contendas.

Em nossos testes, salvo nas primeiras horas após o lançamento, encontramos partidas sem maiores problemas. E, durante elas, tudo fluiu muito bem.

O que não empolga tanto são os desenhos dos menus e a navegação por eles. As sucessivas telas de loading e a usabilidade confusa acabam por tornar a experiência um pouco frustrante. Ir e voltar por opções, sempre sendo surpreendido por carregamentos, é tedioso.

Here Comes a New Challenger!

Errando em partes onde não poderia errar, Marvel vs. Capcom: Infinite corre o risco de ser apenas uma opção e não uma certeza. A proposta se contradiz, sendo uma espécie de gangorra. Hora está em cima, hora está em baixa.

Em baixa por prometer uma campanha com a autenticação da Marvel e que, na realidade, é arrastada, sem graça e pouco convincente. Tentou ser algo épico, mas está só a poucos passos de A Shadow Falls, o modo estória de Street Fighter V e muito distante de uma trama como a de Injustice 2.

Pesa ainda a falta de um cast de peso. As ausências não só dos X-Men, mas de vários outros universos de ambas empresas, é um crivo para os interessados. Sabendo que certamente haverá uma versão completa (com mais lutadores) em um futuro não muito distante, muitos vão deixar de considerar a compra neste momento.

Por outro lado, as refinadas mecânicas de jogabilidade, as Joias do Infinito, a dinâmica de trocas de personagens e a curva de aprendizado equilibradíssima – novatos e veteranos vão gostar -, são ótimas. O game acaba sendo bem divertido. Estudar combos, mesclar opções e aplicar alternativas é viciante.

Em termos técnicos, é uma proposta robusta, com muitos modos, mas que pouco convence em termos de personagens.  Portanto, é importante ficar atento aos valores e considerá-lo em sua lista quando uma promoção se fizer presente. É um bom jogo, mas que poderia ter sido muito melhor.

* O jogo foi cedido pela Capcom para avaliação.

AVALIAÇÃO FINAL
Jogabilidade
9
Enredo
6
Visual
8
Sonoplastia
7
Diversão
8
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