Project CARS 2: Vale a Pena?

Verdade seja dita, simuladores de corrida estão em falta nesta geração. Não existem muitos expoentes do gênero, e neste ano, poucos lançamentos foram anunciados. O que, de certa forma, aguça o interesse e preocupação dos fãs do gênero. Project CARS 2 é “mais um título” neste universo.

Este “mais um” não significa, contudo, que ele possa ser equiparado aos demais. A Slightly Mad Studios entrega um título competente, com uma jogabilidade distinta, vasto conteúdo, e que segue à risca a máxima “fácil de jogar, difícil de dominar”. Um jogo que leva a palavra “simulação” a um outro nível.

Com a adição de inúmeros elementos (agora temos novas fabricantes, como Ferrari, Honda, e outros), o título se mostra um forte candidato ao melhor jogo de corrida do ano. Sem qualquer eufemismo.

Conteúdo para dar e vender

Conforme prometido anteriormente, o jogo é muito mais substancial que seu antecessor. São inúmeras pistas, mais que o dobro de carros (com suas versões mais atuais – vide o Honda Civic, por exemplo), e agora há a possibilidade de escolher provas de Rallycross, IndyCAR, corridas na neve, com cada uma das pistas com um ciclo dia-e-noite completo.

Não há um enredo, por assim dizer. Há o modo carreira, no qual o jogador cria seu piloto, e enfrenta outros oponentes por fama, vitórias e contratos com outras equipes. A medida que vai evoluindo, recebe ainda convites para correr eventos das montadoras, bem como outros eventos especiais.

Os eventos por convite tem variantes que os tornam desafiadores. Fonte: Captura de Tela.

Os jogadores ainda podem criar suas próprias corridas personalizadas, ou seu “fim de semana de treino”. Enquanto isso, no modo online, os eventos de comunidade estão de volta, com jogadores competindo em pistas específicas, com carros pré-determinados. E é certo dizer: estão bem melhores que sua primeira iteração.

O modo online funciona perfeitamente. Sem lags, ou lentidão que atrapalhe a jogabilidade, mesmo em conexões não muito robustas. É possível entrar em partidas pré-programadas, ou criar sua própria, algo visto com bons olhos na comunidade de jogadores. Tendo em vista o crescimento do cenário de eSports, Project CARS 2 também se destaca neste quesito.

No entanto, para que seja possível tanto conteúdo, foi necessário abrir mão de alguma coisa. Neste caso, não existe modo multijogador local, o que certamente daria um outro olhar sobre o jogo.

A jogabilidade

Explicar sobre a jogabilidade de um jogo tão profundo é uma tarefa quase injusta. Talvez por isso esta análise tenha levado um pouco mais de tempo. E, para tanto, vamos dividir essa parte em duas, para ficar melhor compreensível.

  • Como espectador

Observar as coisas “de fora da história” tem suas vantagens. No caso de Project CARS 2, é interessante ver como as bases das corridas são elaboradas. Tudo mais fácil de entender, visto que o jogo possui menus e legendas totalmente localizados.

Antes de começar uma corrida, o jogador tem opções de melhorar o carro, de forma quase total. Suspensão, freios, amortecedores… Quase tudo no carro pode ser personalizado, dependendo do estilo de jogo, e do que se espera do comportamento do veículo. Assim, o jogador pode deixa-lo mais rápido, mas menos manobrável, e vice-versa.

As inúmeras opções de modificação dos carros são explicadas com o painel de ajuda. Fonte: Captura de Tela.

E, se mesmo assim, as modificações não o agradarem, agora há o engenheiro para auxiliar. Basta fornecer qual tipo de situação o carro está enfrentando, e o engenheiro lhe dará a dica necessária para resolver o problema. Por exemplo: se o carro estiver derrapando ao frear, o engenheiro irá sugerir diminuir a pressão dos freios em 1%.

Pode parecer mínimo, mas o resultado é visível e imediato. E o que torna o jogo tão interessante é que estas modificações realmente fazem algum sentido. Uma rápida pesquisa na internet mostra que basicamente tudo do jogo foi feito com base em situações iguais no mundo real.

  • Por trás do volante

A jogabilidade do título é bastante precisa. Os controles são responsivos, e as situações na pista refletem as ações do jogador. Neste quesito, infelizmente, Project CARS 2 comete uma falha já vista em seu antecessor. O jogo parece ter sido desenvolvido para ser usado especificamente com controladores-volante.

É um suplício jogar com a configuração original, se o jogador somente dispor do DualShock 4. E mesmo assim, com uma configuração decente, será necessário que o jogador se acostume, e perca algumas vezes, antes de entender como tudo funciona. Durante a análise do título, as configurações abaixo mostraram-se eficazes.

Mas esqueça por um momento este detalhe. Nas pistas, tudo acontece como deveria. Caso o jogador queira a máxima experiência de simulação possível, poderá configurar diversas opções para tornar suas corridas mais autênticas. Desgaste dos pneus, consumo de combustível. Tudo pode ser alterado, para dar maior dinamicidade ao gameplay.

Não apenas isso. Há ainda a variação de clima (e estes são variados), que traz outro elemento a ser considerado. Chuva forte, nevasca, neblina. Tal qual suas variantes no mundo real, elas impactam de forma diferente, e cada cenário deve ser abordado com uma estratégia distinta, e esta será a chave para a vitória.

Correr na neve (ou gelo) é um desafio especialmente voraz.

A lataria está brilhando

Project CARS 2 honra o legado de seu antecessor, que era conhecido por seus gráficos extremamente bem trabalhados e realistas. Os carros são reproduzidos com fidelidade. Os detalhes e nuances dos veículos são quase palpáveis. E os efeitos de luz e sombra sobre os elementos do jogo são fantásticos.

Aqui fica uma observação especial. Jogar com a variação dinâmica de clima, e com o ciclo dia/noite do jogo é algo sublime. Uma experiência poucas vezes sentida com jogos do gênero. Ver o dia se transformar em noite enquanto uma tempestade cai do lado de fora deixa qualquer um sem palavras. Permita-se, jogador, passar por algo assim.

Por falar em mudança de clima, esta característica produz um efeito especial nas pistas. Chuva, neve, tempestade, não influenciam apenas a jogabilidade e o comportamento do carro. Mas dão um show especial no que tange aos gráficos. Estes elementos são replicados com fidelidade soberba, e de forma deveras satisfatória.

Os detalhes dos veículos também impressionam. Tanto por dentro quanto por fora, a impressão é que estes foram digitalmente transportados para dentro do jogo. Sério, não há outra forma de colocar. Mesmo que o quantitativo ainda esteja inferior a algumas versões de Gran Turismo, por exemplo, cada um dos bólidos é fielmente construído.

Aprecie, sem moderação, cada um dos inúmeros detalhes do jogo. Fonte: Captura de Tela.

Ainda assim, ainda há um bug ou outro. Certos elementos do cenário desaparecem sem explicação, elementos do clima/tempo não são renderizados como deveriam. Nada, contudo, que chegue a impactar na experiência, e que não possa ser resolvido com uma atualização.

Ouça o ronco dos motores

A parte sonora de Project CARS 2 é excepcional, no que diz respeito à sonoplastia. Os roncos dos motores são realistas. Derrapar após uma brusca frenagem transmite exatamente o efeito que se pretende. O jogador sentir-se-á, literalmente, dentro das pistas, enquanto os carros voam baixo por curvas e retas.

Além destes, ainda há os sons e efeitos das pistas. Correr no gelo, no cascalho, no asfalto, cada qual com sua particularidade, tem um ar ainda mais realista. Os efeitos de clima contribuem sobremaneira para isso também. Corridas sob a chuva são particularmente satisfatórias.

A qualidade sonora é assustadora. Chega-se a pensar que a chuva cai, de fato, dentro do quarto. Para melhor imersão, use fones de ouvido. Fonte: Captura de Tela.

E para completar, as conversas com a equipe de box soa interessante. Não chega, claro, ao nível da série F1, da Codemasters. E este, certamente, não era o objetivo. Mas cumpre o que se propõe.

No entanto, tal qual sua encarnação anterior, a equipe de desenvolvimento cometeu o “deslize” de não incluir uma trilha sonora. Ou seja: o jogador pode se contentar somente com o ronco dos motores e todos os outros aspectos sonoros que são inerentes ao jogo, ou ligar seu reprodutor de mídia favorito, e se deleitar com suas próprias músicas.

É um ponto falho? Certamente. Chega a ser um problema? De forma alguma. A competência da SMS em entregar um produto com essa qualidade não há de ser maculada por essa questão. Mas é certo que faz diferença, e não poderia deixar de se comentar.

Project CARS 2 – A bandeirada final

Project CARS 2 não é apenas mais um jogo de simulação. Ele traz, com fidelidade impressionante, a sensação das corridas para o PlayStation 4. A SMS melhorou o que precisava ser melhorado, expandiu o título de todas as formas, e entrega uma experiência completa, e cheia de conteúdo.

Não se pode dizer, claro, que o título seja perfeito. Há diversos quesitos que precisam ser levados em consideração, como já citados acima. Mas tais situações não são suficientes para trazer demérito ao jogo.

Um jogo feito para todos os gostos, e que justifica sua existência de forma primorosa. De uma forma sucinta e direta: faz jus ao investimento, nele e em acessórios para implementar a imersibilidade do gameplay.

Sem qualquer rodeio: ter um volante não justifica a aquisição de Project CARS 2. O jogo, por seu próprio mérito, é a razão que faltava para se adquirir um volante periférico. Sem medo.

*A cópia do jogo foi cedida pela Bandai Namco para avaliação.

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