Shadow of the Colossus é uma história de amor. Não só o conto de um garoto disposto a qualquer coisa para salvar sua amada, mas algo que vai além disso. O título da Sony é o favorito de muitos de nós por conseguir nos transportar de forma brilhante para uma narrativa onde enfrentamos ( e vencemos ) desafios inimagináveis. E ele o faz com um minimalismo japonês de dar inveja a muitas experiências que temos por aí.

É engraçado como SoTC  oferecendo apenas um garotinho, duas opções de armas, uma égua e um mundo pouco povoado – consegue transmitir todas as sensações de uma aventura epopéica. E as letrinhas dos créditos finais não encerram a jornada. Você fica matutando sobre tudo que vivenciou em pouco menos de 10 horas de jogatina. E não há respostas para tudo. Como pode, algo que deixa conclusões vazias ser tão significante? Difícil explicar.

Talvez por isso esta seja a terceira entrada do título em três gerações seguidas. E não fique surpreso se em um eventual PlayStation 5 a Sony decidir lançar mais uma versão melhorada do jogo. E já se prepare: você vai querer re-jogá-lo novamente.

E já vos antecipo: este remake está incrível!

Claro que o mais chama atenção é o visual repaginado. Impossível não se impressionar com a beleza dos ambientes, com os vales arborizados, com os desertos uivantes, com os templos misteriosos. É tudo muito lindo. Mas as batalhas absurdas contra as belíssimas criaturas são – sem dúvidas – o ponto alto de todo o jogo. O bacana é que você vivencia isso dezesseis vezes e cada uma delas tem um sabor diferente.

Freud explica

SoTC pouco se preocupa com explicações. Não há aqui diálogos complexos, personagens emblemáticos ou mesmo longas cenas de corte. O jogo começa com Wander, o protagonista, adentrando nas Terras Proibidas trazendo consigo a jovem Mono. A garota jaz sem vida. E aí que tudo tem início. O destemido jovem vai até um Santuário onde celebra um acordo com uma espécie de espírito. A entidade “pede” para que Wander derrote 16 criaturas gigantes. Caso ele o faça, a alma de Mono será traga de volta. O rapaz então aceita – sem discutir – os termos e parte em busca das feras.

Wander fará de tudo para trazer sua amada de volta. Fonte: captura própria.

E aí que o jogo apresenta sua vertente única: é como uma história de Davi vs. Golias, uma luta pouquíssimo provável em que qualquer um apostaria no lado mais forte. Wander tem apenas: um arco e flecha, uma espada mágica e a égua Agro. Só isso e nada mais. O brilhantismo do game é na maneira como os jogadores são arremessados nesta aventura.

Shadow of the Colossus não demora muito para mostrar o quão épica cada investida é. Leva apenas cinco minutos para você se hipnotizar pelo primeiro embate contra Valus, o Colossi número 1.

Você, um pseudo-guerreiro franzino, com um arco e flecha e uma espada frente a uma criatura de  mais de 20 metros. Como vencer?  Inteligência.

O objetivo é golpear os pontos fracos da fera, mas isso é apenas o desfecho de uma sequência de passos. A grande sacada de Shadow of the Colossus é fazer com que Wander descubra como chegar até estes tais pontos.

O primeiro encontro com um Colossi é memorável.

Para vencer você precisa avaliar com cuidado cada canto dos cenários e pensar em alternativas lógicas. Se um Colosso possui uma espada revestida de um material muito resistente, talvez uma boa ideia seja força-lo a atacar um terreno mais duro, fazendo com que sua arma se quebre ou mesmo atrai-lo para uma armadilha. Cada batalha tem um desenho diferente. Uma mesma estratégia não pode ser replicada em outra.

Este é o ponto crucial: o divertido é você descobrir como escalar os gigantes. Quando você “saca” o que é necessário fazer, é inevitável a euforia da descoberta.

Mas o melhor ainda está por vir!

Escalar um Colosso é simplesmente sensacional. Você, um pequenino jovem, grudado na penugem de um titã, correndo o risco de ser, sumariamente, esmagado vai lutando contra todos os fatores até que consegue encontrar um meio de vencer.

E ao desferir o último golpe, um dualismo de sentimentos vai inundar sua mente. Se por um lado ver o gigante tombando ao solo é gratificante, fica uma sensação estranha de pena pelo criatura. Ele – o Colossi – é mesmo meu verdadeiro inimigo? É o certo, invadir seu território e matá-lo? Mas você segue em frente, na busca de um novo oponente.

Cada luta é incrivelmente única. Como não ficar extasiado pelas cenas protagonizadas pelo gigante dos ares, Avion? Tudo embalado por uma sonoplastia emocionante. Todavia, aquela sensação esquisita também vai ficando maior, mesmo que a ressureição de Mono esteja avançando a cada passo…

É certo ou errado?

Remake

A Bluepoint Games já se tornou especialista em recriações. E SoTC está em um patamar acima de Uncharted: The Nathan Drake Collection. Talvez pela expertise ou pelo maior Gap de gerações, neste novo projeto fica mais evidente o bom trabalho da equipe.

O jogo é uma recriação do zero. Basta você comparar as versões. As texturas e todas as modelagens estão belíssimas e se você jogar no PS4 Pro fica melhor ainda em 4K. Cenários mais detalhados, ambientes mais vívidos, cachoeiras, os próprios Colossos e seus magníficos pêlos, tudo é esplêndido.

Mesmo assim ainda é possível ver algumas poucas falhas de renderizações em algumas partes – sabe quando demora para o jogo carregar as texturas ? -. Não é algo que manche todo bom trabalho. Talvez sirva apenas de munição para os mais críticos. Nada além.

Mas há algo que não ficou tão legal: a câmera.

Mesmo que você conte com opções para ajustar a sensibilidade da visão, ainda assim ela não se posiciona bem em várias situações, evidenciando – só nesta parte – que SoTC é um jogo antigo. Principalmente nas lutas contra os Colossos mais rápidos, onde você precisa ser ágil, a câmera gira em momentos inoportunos ou não se decide nos ângulos. Algo que já acontecia no original e foi mantido no remake.

A Bluepoint Games poderia ter trabalhado nestas melhorias, o que não faria com que a “essência” fosse perdida. Seria apenas uma lapidação adicional. Ou mesmo, fazer como nos controles, deixando opções mais modernas para seleção. No game você pode optar entre os comandos clássicos ou configurações mais atuais. Fica mesmo a gosto do freguês.

Mas o remake adicionou, além de um visual de ponta, coisinhas novas muito bacanas. Existem novos segredos a serem descobertos. Além das caudas de lagartos e das frutas, é possível procurar por relíquias douradas e elas estão espalhadas por todo mapa! O que acontece quando se encontra todas?….mistério.

E por fim, o Modo Fotográfico. Um dos melhores do PlayStation 4. Se você gosta memorizar cenas, esta opção vai lhe agradar muito, com escolhas de filtros, mudanças de ângulos e inclinações. Dá para “perder” boas horas por aqui.

Modo fotográfico.

Vale a Pena Ver de Novo

Shadow of the Colossus é um clássico que transcende seu tempo. Se você ainda não teve a oportunidade de experimentar o game, eis uma chance de ouro. Só recomendamos que você se esquive dos milhares de vídeos espalhados no YouTube. O prazer de uma descoberta inédita é o que garante o crocante sabor do game. Tente entender como derrotar cada oponente por você mesmo. Alguns levam um pouquinho mais de tempo, mas vale mesmo a pena.

Mas se você já jogou o game antes, é bem provável que esteja pensando neste momento se é inteligente comprá-lo mais uma vez. Inevitável, todos pensamos dessa forma, afinal dinheiro não costuma dar em árvores – uma pena – . Mas o trabalho da Bluepoint Games é de altíssimo nível, talvez o melhor remake de todos os tempos. Visual belíssimo, trilha sonora regravada com mais instrumentos, alguns novos segredos e Modo Fotográfico pesam positivamente. Mas o principal ponto em questão é o sabor de reviver toda esta belíssima experiência novamente, isso, sem dúvidas, é o ponto-chave. Shadow of the Colossus é amor…algo irracional, pulsante, vibrante, fora de eixo, com o coração tomando todas as decisões “com razões que a própria razão desconhece”.

Avaliação
Visual
9.6
Jogabilidade
9.6
Sonoplastia
10
Enredo
10
Diversão
10
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