Strafe: É Indie Mas…

Strafe tem como premissa ser uma homenagem sincera aos antigos jogos de tiro, que tanto sucesso fizeram no passado.

De forma bastante suscita e direta, Strafe decepciona. Não por ser totalmente ruim, ou por ser totalmente falho. Mas porque, quem o joga, percebe seu potencial, mas precisa lidar com algo quase “inacabado”. Quase como aquele aluno desleixado e extremamente inteligente, que atira aos porcos as pérolas das oportunidades que tem na vida.

Com uma mistura de FPS e roguelike, o título tem a premissa de homenagear os grandes shooters do passado. Jogos como Quake, Doom e Duke Nukem, que fizeram a infância de muitos/as jogadores/as felizes (sim, se você tem mais de 30 anos, jogou esses jogos quando criança. Não adianta mentir).

Strafe é violento, cruel e acelerado. Pintar as paredes com o sangue dos inimigos é algo divino, e a trilha sonora é sensacional. No entanto, erros de design, dificuldade injustamente exagerada e diversos bugs estragam esta que deveria ser uma experiência diferenciada.

  • Jogo: Strafe
  • Desenvolvido por: Pixel Titans
  • Distribuído por: Devolver Digital
  • Onde encontrar: Aqui (R$ 71,50 – Sem opção de Cross-Buy)

Perdido no espaço

A história é um perfeito pano de fundo. O jogador é um “garimpeiro” (scrapper), que vai aos confins do espaço (audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve). A busca era por recompensas além da imaginação, mas nada é encontrado. Ao retornar à sua nave, Icarus, o jogador percebe que algo está terrivelmente errado. Simples e objetivo.

Com isso, toma-se o controle do personagem e pode-se começar a carnificina. Inicialmente, o jogador pode escolher entre três armas, entre uma metralhadora, escopeta e arma de raio. Mais armas podem ser encontradas durante a jornada. Jornada esta que tem um único objetivo: descobrir o que ocorreu. E sair vivo no processo, se possível.

Entrar em uma nave estranha e se deparar com um corpo no chão não é uma das melhores saudações de boas vindas. Fonte: Captura de Tela.

Pelo caminho, será possível adquirir itens nas lojas (com transações financeiras) e melhorias para as armas nas estações de trabalho (com itens encontrados no jogo). Como todos os níveis são gerados aleatoriamente ao se iniciar, é certo que tentar decorar algo é perda de tempo.

E, como já dito, o jogo é do gênero Rogue. O que quer dizer que, ao morrer, o jogador deve inicia-lo novamente. Do começo. Sabidamente, este não é um jogo para os fracos de perseverança e jogadores/as de pouca fé.

Morrer é recomeçar tudo novamente. Mas ao menos, você levou alguns com você. Fonte: Captura de Tela.

Peças que não se encaixam muito bem

Mas, este gênero trouxe algumas inconsistências ao título. Primeiro, na questão do level design. Algo que tornava os antigos títulos tão interessantes eram seus níveis bem elaborados, cheios de segredos. E extremamente convidativo a speedruns (o término da fase no menor tempo possível). Em Strafe, isso não é tão simples.

O layout dos estágios muda a cada nova partida. Mas pode se dizer que é uma pseudo-aleatoriedade. As salas são geradas proceduralmente. Mas as partes usadas nos mapas são, geralmente, as mesmas. Essa impressão fica mais nítida após algumas partidas. As fases acabam por não parecer tão diferentes entre si.

A sensação de repetição toma conta do jogo após algumas horas. Fonte: Captura de Tela.

Não que este seja um conceito ruim. Mas sente-se que tal não se encaixa como deveria na proposta do jogo. Especialmente se a inteligência artificial dos inimigos for considerada. É certo que este jogo busca emular os ícones do passado. E, naquela época, não se falava muito em comportamento dos inimigos.

Mas neste jogo, a visão poderia ser diferente. O que se percebe é que os inimigos agem como zumbis de filmes conhecidos. Tentam vencer o jogador pelo número, ao invés de usar táticas. Até mesmo aqueles que, por definição, precisariam ser “um pouco” mais “espertos”.

Partes com defeito que precisam ser “trocadas”.

No entanto, a parte mais desanimadora do título está na junção destes elementos, com a “adição” de alguns bugs e glitches (cuja maioria já foi endereçada por meio de atualizações), para “completar” a situação. Existem inúmeros problemas, que podem (e precisam) ser resolvidos.

Sua dificuldade é desbalanceada, de forma injusta. Este autor justifica: nada contra jogos difíceis (sua preferência é pelos mais brutais, como Super Meat Boy e OlliOlli2). Mas deve haver equilíbrio. O que se sente em Strafe é um misto de frustração e raiva quando se morre. Por melhor que o jogador seja.

Prepare-se para ver esta tela muitas e muitas vezes. Fonte: Captura de Tela.

A localização dos inimigos é aleatória como os estágios. Então, não raro eles acabam por aparece em salas já visitadas, forçando o jogador a tomar um cuidado extra. Há o problema de eles se moverem de forma estranhamente silenciosa. E, para piorar, a sua mira é excepcional, e acertam com precisão e força desbalanceadas.

As armas não são divertidas de se usar. Não possuem peso, ou mesmo uma reposta sonora satisfatória. É certo afirmar que, antigamente, a situação poderia ser a mesma. Mas mesmo no primeiro Doom, por exemplo, a escopeta era uma arma devastadora. Neste jogo, ela apenas é uma arma.

Para completar, o jogo foi praguejado por inúmeros problemas técnicos no seu início. Estações que recolhiam partes e não forneciam itens, problemas de áudio, quedas constantes na taxa de quadros, entre tantos outros. Alguns destes já foram resolvidos. Mas ainda não foram totalmente erradicados. Estas são situações que minam seu brilhantismo.

Mas, veja por outro lado…

“Então, este jogo é um fiasco”, você se pergunta, jogador. A resposta é, por incrível que pareça, não. Strafe tem problemas (sérios) e a execução de certas ideias está longe de ser a ideal. Mas o jogo é bom, e como uma homenagem ao passado, está melhor ainda.

A matança é algo excelente. O nível de violência gráfica é soberbo (embora as texturas sejam muito aquém do que se espera, mesmo em um jogo intencionalmente “ultrapassado”). O design dos estágios ser aleatório é um contratempo, mas uma vez nele, pintar a parede com o sangue dos inimigos é divertido como era antigamente.

E o que dizer da trilha sonora. Ela invoca aquele senso de nostalgia dos grandes filmes de ficção científica do passado (O Sobrevivente, Predador, Blade Runner). Se a sonoplastia do jogo apresenta seus defeitos, a trilha sonora se excede em sua proposta. E neste quesito, a Pixel Titans merece elogios.

O jogo é localizado em nosso idioma. As piadas internas, a apresentação do jogo, com equipamentos antigos e sistemas datados, é visualmente bela. Além disso, o título conta também com um troféu de platina, para agradar aqueles que gostam de desafios.

A localização do jogo para nosso idioma e seu estilo retrô são diferenciais. Fonte: Captura de Tela.

E ainda há o modo Murderzone (nome interessante, frisa-se), onde o jogador é colocado contra hordas de inimigos. Apesar de ainda ser permeado por alguns dos bugs da campanha principal, este modo é extremamente divertido. Fora que, para se “conectar”, o jogador ainda ouve aquele famoso som de conexão discada.

Nada dá um ar tão 1996 quanto logar em um sistema usando o antigo DOS. Fonte: Captura de Tela.

Strafe: Vale ou não vale?

O jogo tem seus problemas. É decepcionante ver como certas ideias extremamente promissoras foram equivocadamente utilizadas. Mas também é satisfatório ver o empenho de uma empresa em tentar resolver estas inconsistências, e a maneira como sua proposta, de homenagear um passado glorioso, é executada.

Strafe não é perfeito, mas certamente poderá ter um lugar em sua estante digital.

VEREDITO: É Indie Mas… Não é tão legal (como poderia ser).

O que é bom:

  • Gráficos “old school”;
  • Jogabilidade violenta;
  • Trilha sonora marcante.

O que não é bom:

  • Dificuldade injusta;
  • Bugs e glitches absurdos;
  • Problemas técnicos diversos;
  • Design dos níveis pseudo-aleatórios que atrapalham a exploração.

Para quem jogou e gostou de:

  • Quake;
  • Doom;
  • Duke Nukem.