Umbrella Corps é um jogo de tiro em terceira pessoa ambientado no universo de Resident Evil. O título tem a proposta de trazer uma experiência diferente para quem conhece a série da Capcom, com partidas frenéticas em cenários nostálgicos.

Focado no multiplayer, Umbrella Corps oferece apenas dois modos de jogo: Uma Vida (One Life Match) e Multi-Missão (Multi-Mission). No primeiro, como o nome já diz, os jogadores devem se enfrentar na arena sem chance de respawn até o final da rodada. Já no segundo, oito tipos de missões variadas são escolhidas ao acaso durante cada rodada da partida.

História que não é bem história

Qual é o contexto de Umbrella Corps? Não é um game cronológico para a franquia, mas supostamente, se passa após Resident Evil 6. Após o fim da Umbrella, várias empresas farmacêuticas assumiram o legado da gigante que destruiu Raccoon City. Por isso, essas companhias contratam mercenários que revisitam locais de incidentes biológicos para travarem batalhas experimentais.

Umbrella Corps não precisaria se dar ao trabalho de criar todo um contexto para as partidas, já que a essência do jogo é o puro mata-mata nas arenas, mas já que o fez, ficou nítido que é apenas uma desculpa para justificar que dois grupos estejam atirando um no outro.

Eu conheço essa voz

Por falar em história, um detalhe de Umbrella Corps que deixou alguns fãs da série Resident Evil com os cabelos em pé é a voz do protagonista. Se é que podemos considerar literalmente o “boneco” controlado pelo jogador de algo próximo de um personagem.

O mercenário é mascarado, sem nome, sem rosto, sem personalidade, motivações, histórias ou objetivos… talvez não faça muito sentido em um mero multiplayer competitivo, mas não é muito comum na série Resident Evil encontrar personagens que sejam meros avatares de arena.

Mas voltando à voz. O dublador do “protagonista” é ninguém menos que DC Douglas, o mesmo ator responsável por interpretar Albert Wesker nos últimos jogos da franquia. Será que a Capcom não achou que ficaria, no mínimo, estranho colocar uma voz tão familiar e marcante, de um dos personagens mais icônicos de Resident Evil nesse mercenário?

Combate? Só se for contra os controles

Não é necessário jogar Umbrella Corps por muito tempo para perceber que os desenvolvedores “erraram a mão” ao criarem este título. Talvez falta de experiência em jogos de tiro multiplayer? É difícil apontar um único aspecto do game que funcione minimamente bem.

Começando pela câmera: o campo visual é mínimo e prejudica imensamente a visão do campo de batalha, o que é essencial em um jogo competitivo e frenético como esta proposta.

A câmera é colocada muito próxima ao personagem, que fica totalmente deslocado para o canto esquerdo da tela. Para completar, esse posicionamento prejudica ainda mais a visão desse lado do campo visual, tornando as coisas bem complicadas.

A movimentação angular do personagem também é bastante ruim e lenta, o que atravanca qualquer forma de tentar compensar a total falta de visão ao seu redor.

Mais estranha do que a câmera é a movimentação dos personagens, que parecem deslizar em uma pista de gelo o tempo todo. Você se movimenta extremamente rápido, independente da posição: em pé, agachado e até mesmo deitado no chão.

Complicando ainda mais a experiência, a mira em primeira pessoa. Após diversas tentativas, você descobre que é melhor nem usá-la. Ao ser acionada, a mira reduz ainda mais o já curto alcance visual. A arma é posicionada bem no centro da tela e aparece enorme, tampando ainda mais a sua visão. Dá pra piorar? Sim. A mira em primeira pessoa é estranhamente lenta. Em outras palavras, não ajuda em nada.

Arsenal desbalanceado

Com o tempo, você realmente esquece que Umbrella Corps possui uma mira em primeira pessoa. Não porque você desiste de usá-la, mas sim, por ela ser desnecessária. Isso acontece, pois todos os jogadores rapidamente descobrem que as escopetas são imensamente mais poderosas que os rifles de assalto e metralhadoras. Enquanto você morre tentando descarregar um pente inteiro no inimigo, com dois ou três disparos de escopeta o seu personagem já vira sobremesa de zumbi.

Uma ferramenta interessante do arsenal de Umbrella Corps é uma espéce de machado estilizado chamado Racha-Crânio (ou Brainer). Esse instrumento seria bem legal se garantisse alguns combates corpo-a-corpo em vez de ser basicamente 1-hit-kill contra qualquer coisa, incluindo outros mercenários e armas biológicas.

Não demorou muito tempo para que todas as arenas estivessem completamente infestadas de pessoas jogando somente com escopetas e saíssem correndo com seus Racha-Crânio tentando acertar qualquer coisa que se mova.

Cenários nostálgicos, mas nem tanto

Um dos maiores problemas de Umbrella Corps são seus mapas. Ainda que alguns apelem para a nostalgia, como o de Raccoon City destruída ou a R.P.D, todos eles sofrem de um mesmo mal: são muito, mas muito pequenos.

Com excessão do Pueblo (RE4) e de Kijuju (RE5), todas as arenas tem áreas muito reduzidas. Os cenários são simplesmente chatos, não há palavra melhor para descrevê-los.

Pequenas cômodos separados por portas, corredores estreitos ou dutos de ventilação que não oferecem nenhum diferencial além do visual. Visual que, aliás, não é dos melhores. Usando Unity como engine, o jogo possui gráficos muito aquém de outros jogos de PlayStation 4.

Esses cenários tão pequenos são, provavelmente, o calcanhar de Aquiles de Umbrella Corps. Em arenas tão reduzidas, os jogadores basicamente esbarram uns nos outros e a jogatina vira praticamente um faroeste: quem atira primeiro ganha. Mais um motivo para as escopetas serem as preferidas, por serem as armas que funcionam melhor em curto alcance.

Com tão pouco espaço, nas partidas com respawn do modo Multi-Missão, é melhor torcer para você não voltar simplesmente do lado de alguém da equipe inimiga, o que acontece com bastante frequência.

Os cenários ainda demonstram um level design de baixa qualidade. As arenas não oferecem desafios, não proporcionam estratégias ou qualquer tipo de abordagem planejada que não seja dar de cara com alguém e atirar até que o outro caia.

O precário desenho de fases também transparece no sistema de cobertura. Em alguns locais, as barricadas simplesmente não fazem sentido. Como os ambientes são pequenos é muito melhor simplesmente “cair pra dentro” do que tentar trocar tiros atrás de uma barreira. Isso se nenhum membro do outro time facilmente atacá-lo por trás.

Frenético e enfadonho

Com espaços mínimos e personagens que se deslocam rápido demais, as partidas duram muito pouco. Com a repetição constante e a falta de estímulo pela exploração ou a elaboração de estratégias, o jogo deixa de ser interessante depois de poucas horas.

O modo Uma Vida, que deveria deixar os jogadores tensos com a ausência de respawn, causa mais tédio do que ansiedade. É normal morrer após alguns segundos e, mesmo que você seja o vencedor da partida, esta dura poucos minutos.

Já o modo Multi-Missão tem uma proposta mais interessante. Como as missões de cada rodada são escolhidas aleatoriamente, os jogadores são pegos de surpresa com objetivos diferentes o tempo todo. No entanto, o problema desse tipo de abordagem é também não permitir que o jogador escolha quais modos gostaria jogar se existir algum tipo de preferência.

Outra limitação imposta pelo game é a necessidade com salas com obrigatoriamente seis jogadores em partidas 3×3. Um número maior do que esse seria obviamente inviável pelo tamanho dos mapas, mas em muitos momentos é necessário esperar bastante até que sua sala esteja completa para iniciar uma partida. É impossível ter disputas 2×2 ou o famoso “X1”.

Outro aspecto morno em Umbrella Corps são as armas biológicas. Os mercenários possuem um dispositivo que os tornam praticamente invisíveis aos monstros, que só atacam caso você fique muito próximo ou o seu escudo seja destruído. Um problema bem frequente nos embates contra os mortos-vivos é que não existe um comportamento “padrão” durante os ataques: as vezes o personagem leva um dano considerável somente por passar ao lado da criatura.

Definitivamente, o pior em duas décadas

Resident Evil completa 20 anos em 2016 e, acredite ou não, caro leitor, Umbrella Corps é um jogo comemorativo desse aniversário.

Antes fosse alguma ironia de péssimo gosto, Umbrella Corps não leva o jogo da série e nem representa duas décadas de uma franquia mutante e que titubeia em termos de qualidade nos últimos anos, mas que jamais entregou algo tão indolente.

Nitidamente, o projeto é um jogo de baixo orçamento, mas isso não deveria ser um problema para uma empresa experiente como a Capcom. Se não fosse pelas promessas de Resident Evil 7, este poderia ser o pior aniversário de todos os tempos.

Afinal, vale a pena?

Após tudo que foi dito, é difícil acreditar que esse parágrafo seja realmente importante agora. Porém, respondendo à pergunta: fique longe. Umbrella Corps não vale a pena se você é fã da série Resident Evil e nem se você gosta de jogos de tiro. Mesmo que você goste muito do gênero e tenha um limiar de qualidade muito camarada, esse jogo decepciona.

Com preços um pouco abaixo do esperado para um lançamento no PlayStation 4, Umbrella Corps possui apenas versão digital. O jogo padrão custa R$ 91,90. Uma edição Deluxe, com um pacote de armas adicionais e máscaras de personagens mais famosos de Resident Evil pode ser comprada por salgados R$ 143,50.

5 - Selo Passe Longe!

*O jogo foi cedido pela Capcom para avaliação