Vampyr é um RPG de ação feito pela Dontnod, o mesmo estúdio de Life Is Strange. O jogador controla o Dr. Jonathan Reid, um médico cirurgião especializado em transfusões de sangue que acabou de voltar do front da Primeira Guerra Mundial. Ao retornar do conflito, Reid é misteriosamente atacado e transformado em um vampiro em um evento extremamente traumático.

O game se passa na Londres pós-vitoriana, um período decadente para a orgulhosa cidade, marcada pelo caos e desordem causados não somente pela guerra, mas pela pandemia de gripe espanhola que afligiu a Europa e matou quase 5% da população mundial.

O médico e o monstro

Vampyr: Vale a Pena? 1

O ponto mais valioso de Vampyr é um personagem principal envolvente. O centro de tudo é a dualidade existente em Reid, o que faz o protagonista vivenciar uma série de conflitos interessantes.

O personagem fica constantemente dividido entre o juramento de Hipócrates, que guia todos os preceitos dos profissionais médicos e coloca a integridade da vida e assistência aos doentes acima de tudo, inclusive de si mesmo, e sua nova natureza, marcada pela intensa e incontrolável fome de sangue.

Ao mesmo tempo, Reid também é um cientista: um homem cético que busca explicações lógicas e práticas para todos os eventos, mas ele não encontrou nos livros, em seus anos de estudo ou em seus experimentos, uma explicação plausível para criatura em em que ele se tornou.

Todas essas contradições tornam o médico Jonathan Reid um personagem bastante interessante e carismático. A narrativa é bastante consistente e diálogos e interações com outros personagens giram em torno do papel de Reid como médico e nas descobertas que ele precisa fazer sobre sua nova natureza.

O jogo também traz alguns elementos bem tradicionais do universo “vampiresco”. Reid obviamente só pode caminhar pelas ruas à noite, possui o poder de “encantar pessoas” para obter respostas sinceras ou para beber seu sangue e só pode entrar na casa de alguém caso seja convidado.

Combate desastroso

Vampyr: Vale a Pena? 2

As dualidades de Vampyr não estão somente em Jonathan Reid. Enquanto a Dontnod criou uma sinopse interessante e um protagonista carismático e envolvente, entregou um game extremamente mal acabado em diversos aspectos.

O sistema de combate é terrível. Com o tempo você descobre que não importa muito qual arma você usa ou se os inimigos são rápidos ou tanques, esmague o botão de ataque, desvie algumas vezes e o problema está resolvido. Como todo RPG, o personagem possui uma árvore de habilidades que podem ser trocadas por pontos de experiência. Algumas delas fazem pouca diferença no combate e jogador, rapidamente, percebe que não vale a pena montar um “set” de habilidades, mas encontrar o que é realmente útil e tornar skills específicas mais fortes.

O sistema de combate sofrível ainda é afetado por problemas técnicos frustrantes: o jogo sofre quedas de framerate constantes e tudo fica ainda pior durante os combates. A câmera também fica mal posicionada em vários momentos, e o jogador perde a visão do que está acontecendo.

Estas questões técnicas atrapalham até mesmo a exploração dos mapas, pois o game congela constantemente. Enquanto você anda pelos cenários, o jogo simplesmente trava por uns 30 segundos várias vezes, sem contar em loadings imensos que acontecem sem motivo aparente (basicamente você está no meio de uma rua e o game começa a “carregar”). Os loadings também são especialmente longos após a morte em algum confronto ou durante a transição entre áreas da cidade.

Até a publicação desta análise a Dontnod não liberou nenhum patch de correção para estes problemas, o que é bastante preocupante.

Sistema narrativo falho

Vampyr
Vampyr, da produtora Dontnod. Fonte: Divulgação.

Como esperado da Dontnod depois de Life is Strange, Vampyr traz um gameplay com grande foco na narrativa e tomadas de decisão. O grande problema é que, com o tempo, você percebe que as decisões oferecidas não são assim tão importantes.

Vampyr possui um grande número de NPCs distribuídos ao longo dos distritos. Todos eles estão relacionados de alguma forma (que você descobre a partir de conversas com eles) e sempre há um personagem central que é chamado de “pilar”, que é essencial para a estabilidade de cada um dos distritos de Londres.

Cada NPC possui parâmetros importantes para o gameplay, que envolvem a qualidade do seu sangue e seu nível de resistência encantamento. A qualidade do sangue impacta a quantidade de XP que Jonathan rebe ao “abraçar” (matar para “drená-los”) estes personagens e envolve a quantidade de pistas descobertas sobre eles e se eles estão doentes (você pode fazer remédios para curá-los).

Desta forma, a parte narrativa do gameplay é impulsionada de forma que o jogador converse com os NPCs para descobrir coisas sobre eles, destravar sidequests e, assim, atingir melhores padrões de “bem-estar” de cada distrito. Reid acumula XP fazendo estas coisas, mas o que garante mais pontos mesmo é sugar os sangue de NPCs. Desta forma, Vampyr coloca o protagonista no papel de um juiz que decide quem vive ou quem morre.

Mais ou menos. O nível de resistência a encantamento de cada personagem é uma barreira que impede que Reid os abrace e a capacidade de encantar NPCs não é algo que pode ser comprado com XP e é somente aumentado com a progressão da história. Assim, Vampyr acaba deixando descaradamente nítido quais são os personagens mais relevantes para a história de cada distrito. Pilares e NPCs importantes para a narrativa sempre tem níveis de resistência altos. Eles só morrerão caso você tome decisões que impactem o pilar e, consequentemente toda a estrutura do distrito.

O game ainda falha em outro aspecto: ainda que você decida impactar a narrativa matando alguns personagens que podem ser encantados para ganhar mais XP e tornar-se mais poderoso, o game automaticamente nivela todos os inimigos para manter a dificuldade constante. Ora, não existe recompensa alguma na “difícil decisão de matar civis” se o protagonista está mais poderoso mas todos os inimigos também estão. No fim das contas, matar NPCs só eleva o nível de Reid, como um número mesmo.

Com o tempo, o grande número de personagens e histórias acaba se tornando uma grande “fofoca de bairro” desinteressante. Conforme o jogador percebe as falhas na estrutura do gameplay,  não há estímulo real no processo de descobrir informações para melhorar a qualidade do sangue.

Ainda, alguns pontos da história que poderiam conter decisões realmente relevantes obrigam o jogador a ter basicamente uma única opção. Várias vezes me peguei pensando “eu queria poder não fazer isto” e não há alternativa oferecida pelo jogo, apenas seguir a narrativa de forma pré-determinada.

“Tão bom e tão ruim ao mesmo tempo”

Esta frase surgiu em uma conversa com um amigo sobre Vampyr. Como um jogo pode ter como ponto de partida uma ideia tão interessante, um protagonista carismático e complexo, mas cercado por um monte de elementos falhos e mal executados?

Vampyr: Vale a Pena? 3Vampyr deveria ser um game sobre empatia. E esse sentimento deveria ser despertado não somente por Reid, mas por todos os outros personagens, para que o jogador sentisse que suas decisões realmente relevância e pudesse vivenciar a dualidade de “médico e monstro”.

No fim das contas, você só está conversando com um monte de gente desinteressante, fazendo sidequests desinteressantes, em cenários desinteressantes (não se vê um sinal característico de Londres no mapa inteiro), tomando decisões igualmente desinteressantes, para perceber que a única coisa que realmente parece interessante é descobrir o mistério por trás das origens vampíricas do protagonista. Imagine isso acontecendo por umas 20 e poucas horas com um combate péssimo?

O resultado é que Vampyr desperta o sentimento verdadeiramente oposto a que se propôs: apatia. Há até um certo egoísmo na desigualdade de profundidade entre o protagonista e todo o resto. Quase sinto-me o mais arrogante dos vampiros – não poderia me importar menos com o mundo ao meu redor.

Errata da autora: Esta análise foi publicada originalmente com nota “3”. Como sou novata com resenhas do MeuPS4, escolhi esta nota com base no sistema de estrelas presente na barra lateral. Originalmente foi considerada uma avaliação de 3/5, o que equivaleria a 6/10. A correção já foi colocada abaixo.

Avaliação
Geral
6