Todo começo tem um fim. Para que uma história possa ser considerada boa, ela deve terminar. Mas não basta apenas ter um final. Ele tem que valer a pena. Precisa dar sentido e valor a toda jornada, especialmente se ela foi extenuante, árdua e penosa. E nesse sentido, Yakuza 6: The Song of Life se sobressai como poucos jogos.

Acompanhamos Kazuma Kiryu em sua última jornada, tentando deixar seu passado de lado. Um passado que insiste em persegui-lo, ignorando suas tentativas frustradas de se arrepender de seus erros e seguir em frente. E que acabam por impactar diretamente aqueles que ele mais ama.

Yakuza 6 é uma ode fantástica. Uma lição de vida em todos os aspectos. Divirta-se, preocupe-se, sinta-se tentado a descobrir cada vez mais do porque as coisas acontecem como acontecem. No final, quando a tela escurecer, e a história finalmente terminar, tenha certeza que a estrada que percorreu valeu a pena.

O Último Voo do Dragão de Dojima

Algumas lições da vida são mais difíceis de aprender que outras. Afinal, por vezes, seus erros o perseguirão para sempre, mesmo que deseje se redimir deles. E todas as consequências de seus atos devem ser respondidas por você. Yakuza 6 provoca muito desses questionamentos filosóficos no jogador.

Kazuma Kiryu é um homem sofrido, com um passado turbulento. Motivado a deixar todos os seus erros para trás, escolhe passar uma temporada na prisão, para poder continuar sua vida de forma tranquila, ao lado daqueles que considera sua família. Por outro lado, o mundo é impiedoso, e sempre cobra o seu preço.

Kazuma Kiryu agora tem uma missão muito mais que especial. É responsável por uma vida. Fonte: Yakuza 6

Ao sair da prisão, tudo mudou. Uma nova facção – uma Tríade Chinesa – tomou conta de Kamurocho. Haruka desapareceu sem deixar rastros, para depois reaparecer, posteriormente, vítima de um “acidente”… e com um filho! Em suma, tudo em sua vida está de cabeça para baixo e o lendário Dragão de Dojima se vê completamente sem rumo.

Munido apenas de sua determinação de ver sua família bem e a salvo, ele irá travar uma cruzada de um homem só. Contra seu antigo clã. Contra a Tríade. Contra tudo e contra todos, para descobrir o que aconteceu com Haruka e para manter sua família a salvo.

Tema a fúria do homem paciente. “Eu vou enterrar todos vocês”. Fonte: Yakuza 6

Sem dar muitos spoilers, o desenrolar do enredo mostra um Kazuma que acaba se tornando um misto de Joel (The Last of Us) com Kratos (God of War). Sua família é, definitivamente, sua vida, e não hesitará em ir até as últimas consequências para protegê-los. Mesmo que isso custe o mais alto dos preços.

A história muito além da história

Mas Yakuza 6 não é apenas sobre vingança, justiça e busca pela verdade. Há muito mais para viver e descobrir no mundo orgânico do jogo. Mesmo aqueles que nunca experimentaram qualquer um dos títulos anteriores poderão se imergir sem qualquer dificuldade.

O recurso “Memories”, e diversos flashbacks resgatam cenas e histórias dos jogos anteriores. A imersão é completa, com um pequeno revés. O jogo não é localizado para nosso idioma (nem mesmo as legendas). Apesar da (sempre) excelente dublagem, os textos em inglês podem afastar alguns interessados.

Flashbacks e o recurso “Memories” mostram a história antes da história. Fonte: Yakuza 6

Mas aqueles que persistirem não sairão decepcionados. O mundo de Yakuza é orgânico, e funciona muito bem ao seu redor. Apesar de Kiryu ser uma peça chave em toda trama, a cidade não desconhece sua existência. As pessoas seguem suas vidas, tem seus afazeres, seus destinos e particularidades.

Ainda assim, os distritos de Kamurocho e o (novo) Onomichi são cheios de histórias para contar. Pare um pouco. Atente-se ao ambiente ao seu redor. Enfim, perceba o quão vibrante as selvas urbanas podem se tornar se você deixar que elas penetrem em sua mente.

Pare. Ouça. Veja. Sinta.

Logo em sua tela inicial, Yakuza 6 mostra todo poder da Dragon Engine. De fato, este pode ser considerado o jogo mais belo de toda saga (até agora). Tudo nele é soberbo. Os gráficos são realistas como poucos. Destaque para a maneira como as expressões faciais dos personagens conseguem transmitir uma miríade de sentimentos dos personagens.

Como é de praxe da franquia, a cultura japonesa é fortemente representada aqui. Com o passar dos anos, a série tornou-se expoente nesse sentido e em The Song of Life tal verdade não é diferente. Tudo no jogo remete à cultura nipônica de uma forma bastante fiel. Com destaque especial aos cenários e suas decorações.

Os cenários não poderiam ser mais japoneses, nem se quisessem. Fonte: Yakuza 6

Obviamente, para tal imersão ser completa, a sonoplastia precisa fazer seu papel. Os sons ambientes, conversas, tudo se casa. Os diálogos continuam de extremo alto nível. As músicas-tema foram bem escolhidas. No entanto, neste ponto surgem os primeiros problemas.

Os temas dos combates é um tanto enfadonho. Algumas das vozes não condizem tanto com a situação mostrada em tela, e certos efeitos sonoros soam estranhos e deslocados. Alguns locais possuem as famigeradas barreiras invisíveis.

São pequenos pontos que olhos e ouvidos mais atentos perceberão com certeza. Mas não chegam a macular o brilhantismo da obra.

Tudo sob controle em Yakuza 6

A jogabilidade continua outra marca característica da série. Os combates são fluidos e dinâmicos. O número de inimigos não deixa os confrontos injustos, mas força o jogador a adotar novas táticas e abordagens. Até porque os inimigos são impiedosos e não hesitarão em fazer sua existência a mais curta possível.

Kiryu mostrando quem é o dono da p*##@ toda! Fonte: Yakuza 6

Evoluir suas habilidades ficou bem mais simplificado. Não existem muitas complicações. Você tem cinco atributos, nos quais você acumula experiência. Com ela, você “compra” novas melhorias, aumenta seus status e melhora suas habilidades, sejam elas quais forem. Tudo muito intuitivo e descomplicado.

Fora das batalhas, existem inúmeras atividades nas quais você poderá imergir-se. Mini games, apesar de em menor número, não deixam a desejar em nada. Como sempre, os clássicos da SEGA retornam, para a alegria dos mais saudosistas. Virtua Fighter, Super Hang On, Outrun… Um prato cheio para jogadores de longa data.

Aprecie algumas pérolas saudosistas, com os mesmos gráficos de antigamente. Fonte: Yakuza 6

Além desses minigames, Kiryu pode se engajar em diversas outras atividades. Quer ficar fitness? Torne-se membro da rede de academias Ryzap. Lá é o lar dos melhores treinadores e nutricionistas de toda Kamurocho! Deseja flertar com mulheres? Você pode tentar suas habilidades de interação social com as diversas pretendentes.

Fora isso, o jogo possui um troféu de platina. Este é considerado o mais acessível de toda franquia. Mas ainda assim requer bastante investimento de tempo para ser conquistado. Dentre elas, realizar todos os treinos da Ryzap, ganhar todos os minijogos, comer tantos alimentos… A lista é grande. Prepare-se.

Atividades diversas rendem experiência extra. Faça o monstro sair da jaula! Fonte: Yakuza 6

Cante a canção da vida

Yakuza 6: The Song of Life marca o fim da história de Kazuma Kiryu. O homem que, uma vez, fora o mais temido entre os membros da sua organização, conhecido e referenciado como uma lenda, agora termina sua jornada. Ao final, é difícil segurar o nó na garganta. O fim é uma adaga no coração, fria e impiedosa.

Esse fim, contudo, traz sua beleza. A história se resolveu. A conclusão realmente amarrou tudo o que deveria. Não existem pontas soltas, ou aberturas para continuações. O Dragão de Dojima combateu o bom combate, e agora descansa o sono dos justos.

Kamurocho, Onimichi, com todos os seus eventos, missões extras, segredos e mistérios, ainda permanecerá lá. Para aqueles que quiserem ainda matar a saudade, haverá uma nova oportunidade de revisitar uma história já contada. Yakuza Kiwami 2 chega ao PS4 em agosto.

Com um aprimoramento em todos os elementos da série, e alguns pequenos problemas quase imperceptíveis, Yakuza 6 é o fim que toda série almeja. Apesar da falta de localização em nosso idioma, aqueles que se arriscarem a apreciar o título terão em suas mãos uma das melhores narrativas do ano. Que, por um acaso ou mão maligna do destino, acaba por sofrer com sua janela de lançamento (disputar com God of War será bastante injusto).

Assim como o antigo Deus da Guerra, que “morreu” (God of War III) para dar lugar a um novo homem, Kazuma Kiryu conclui sua história para dar lugar a um novo conto. Porque todo começo tem um fim.

Mas todo fim é uma chance para um novo começo.

*Cópia do jogo cedida pela SEGA
Avaliação
Geral
8.6