Quando Kratos começa a dialogar com Ares, conta com a intervenção de Atena e depois vai atrás de Zeus, a maioria das pessoas consegue identificar do que se trata rapidamente. Não que seja uma realidade próxima da nossa, mas a mitologia grega é relativamente popular – e chega até a ser ensinada, mesmo que de leve, em alguns colégios.

Só que a próxima aventura de God of War é na mitologia nórdica. Certamente, você já ouviu falar de Thor, pelo menos. Talvez de Odin. Mas e do Yggdrasil? Do Jotunheim? Dos gêmeos Freyr e Freyja? As referências, certamente, não vão ser tão fáceis de pegar. A não ser que o gamer seja leitor do Meu PS4.

Em mais um capítulo da série “Fantasma de Esparta” (relembre o primeiro aqui), vamos fazer uma viagem pelos nove mundos que nascem da Árvore do Poder e apontar os principais pontos dessas histórias que podem aparecer no novo God of War. Já podemos esperar Kratos sendo o responsável pelo Ragnarök? Vamos ver!

A Criação

Assim como qualquer crença, a mitologia nórdica tem a sua versão de como foi criado nosso universo. Essa história aparece na Edda poética, uma coletânea de 11 poemas mitológicos e 19 poemas de heróis nórdicos, que junto com a Edda em prosa, de Snorri Sturluson, é a mais importante fonte de informações sobre essa mitologia.

Odin na Mitologia Nórdica
Vidente conversa com Odin.

A história da criação aparece em Völuspá, que é o primeiro e mais conhecido poema da Edda Poética. Sua tradução é “A Profecia da Vidente”. Nele, a tal “vidente” conversa com Odin, o Deus mais poderoso, e pergunta se ele quer ouvir a história da criação. Que, claro, começa quando não havia nada no universo.

O mundo começou em uma idade de ouro 
Recordo gigantes nascidos no começo do tempo, 
Que a mim criaram em tempos muito longínquos, 
Nove mundos eu recordo, nove raízes da árvore do poder

 
No princípio, só existia um grande abismo chamado “Ginnungagap” e “Yggdrasil”, a árvore cósmica que sustenta os mundos – a “árvore do poder”. Nas raízes dela, havia dois grandes reinos, um de fogo chamado, Muspell, e outro de escuridão e névoa chamado Nifelheim. Só que entre eles havia um caldeirão de água borbulhante, o Hvergelmir.

Nesse caldeirão, passavam as águas de doze grandes rios que flutuavam sobre o grande abismo. Com a precipitação, elas formavam grandes blocos de gelo. No dia da Criação, as chamas de fogo do Muspell caíram sobre esses blocos – formando nuvens que originaram os elementos, o espaço, um grande oceano e a terra, ainda gélida.

Até que os filhos de Bur levantaram as terras, 
criaram a Terra do Meio, um lugar incomparável. 
Desde o Sul brilhou o sol sobre um mundo de rochas. 
A erva começou a crescer e os campos reverdeceram. 
Os Aesir se reuniram em Idavoll 
altos templos e altares levantaram

Nasceram também a primeira criatura viva, um gigante que deu a origem a todos os seres, inclusive demônios e duendes, chamado Ymir, e a vaca Audumbla, a alimentadora, a Mãe Terra. Do gelo e dos rios de leite que ela tinha correndo nas tetas, surgiu Búri, primeiro ser vivo de forma humana.

Seus cabelos tomaram forma, depois a cabeça e por fim o corpo todo. Búri gerou Borr, que ficou conhecido como seu irmão – e gerou Odin, Vili e Ve, que são os primeiros Deuses da Mitologia Nórdica. São os “filhos de Bur”, que teriam criado Midgard, a Terra do Meio, que é o local onde habitam os humanos e os “trolls”.

Nove Mundos

Mas Midgard, ou Mannheim, é somente um dos Nove Mundos da Mitologia Nórdica. Todos sustentados pela árvore sagrada. Acima dele, fica Asgard, ou Godheim, o reino dos Aesir, que formam o panteão principal dos deuses na Mitologia Nórdica – como Odin, Frigga, Thor, Alomam, Balder e Týr.

Árvore_Mitologia Nórdica
Árvore Sagrada

Vanaheim, ou Vanaheimr, é outro reino de deuses, mas de outro clã, os Vanir. A região está à parte de Asgard. Os Vanir são os deuses mais benevolentes, relacionados à agricultura e à natureza. Njord é o seu principal deus, da fertilidade, que segundo a lenda, voltará para lá após o Ragnarok – que já explicaremos o que é.

Além destes dois mundos, entram na lista dos Nove Mundos Nórdicos os citados Musspell (Musphelhien) e Niflheim, de fogo e frio, respectivamente. Portanto, falta falar de outros 4: Jotunheim (Utgard), o mundo dos gigantes, Alfheim (Álflheimr), mundo dos elfos claros, Svartalfheim (Nidavellir), mundo dos elfos negros e anões, e Helheim, mundo dos mortos.

Pelo que vimos nos trailers e imagens de divulgação, Kratos vai passear por todas essas terras – talvez, por isso, tenha um barco. Afinal, reza a lenda que a travessia entre estes mundos, quando possível, normalmente é feita por meio de rios/oceanos. Midgard é um bom exemplo disso.

Bem no meio da Yggdrasil, cercado por um mundo de água, tem passagem, teoricamente intransponível. Afinal, este oceano é habitado pela enorme serpente marinha Jormungard, que circula todo o mar, formando um anel que impede a passagem de quaisquer seres ao agarrar sua própria cauda. Parece que é ela que Kratos enfrenta em um dos trailers.

Conta-se ainda que nas frutas de Yggdrasil estão as respostas das grandes perguntas da humanidade, mas somente os deuses podem visitá-la. Dizia-se também que as folhas de Yggdrasil poderiam trazer as pessoas de volta a vida, e apenas um de seus frutos curaria qualquer doença e até mesmo salvaria uma pessoa à beira da morte.

Criaturas Mágicas

É bem provável que Kratos passeie por esses mundos, mas o que ele vai encontrar por lá, além da Jormungard? A Mitologia Nórdica é recheada de criaturas mágicas, e certamente nosso querido Deus da Guerra vai bater de frente com muitas delas. O temido Kraken, por exemplo. Uma enorme e lendária criatura marítima já inúmeras vezes retratada.

Jormungard_God of War
Kratos se depara com Jormungard

Os vikings não devem aparecer, como já disse Cory Barlog, mas os anões sim. Na forja de armas, por exemplo. Dvalin, Lofar e Durinn são alguns dos anões mais famosos da lenda. Valquírias, que são como bruxas, e os gigantes Jotuns, são outros tipos de personagens bem famosos e que devem aparecer bastante. Sem falar nos Elfos!

E há muitos personagens famosos na Mitologia Nórdica. Como o Nokken, que lembra o boto cor de rosa brasileiro. Pode se transformar em um belo homem para as enganar as pessoas e levá-las para o fundo de uma lagoa. Ele vira até um bonito cavalo branco que pode enganar as crianças.

Fenrir, o lobo responsável pelo fim do mundo, também é uma criatura assustadora e bem poderosa que pode aparecer em God of War. Assim como Ymir, gigante de gelo que foi o primeiro ser vivo, segundo a lenda da criação nórdica. Garm, guardião dos portões do que seria o Inferno nórdico, é outra presença que aguardamos bastante.

Surt, senhor dos gigantes do fogo e governante do Muspelheim, é mais um dos monstrões que devem aparecer no jogo. Assim como o dragão Nidhoggr, responsável por balancear o bem e o mal. O Draugen, fantasma de um homem que morreu no mar e dá gritos terríveis durante as noites de tempestade, é outro que deve aparecer nas viagens de Kratos.

As Nornas, que são as anciãs da mitologia nórdica, vivem protegidas por um dos ramos da árvore Yggdrasil, junto a um lago, em Asgard. Elas representam o passado (Uro), presente (Veroandi) e futuro (Skuld). Parece certo que o novo God of War terá a presença delas em alguns bate-papos com Kratos.

Deuses

A gente não sabe a história do novo God of War, nem como ou que diabos Kratos foi fazer lá na Escandinávia. Mas se ele derrubou todo o Monte Olimpo, imaginamos que ele pode, dependendo do que acontecer, causar um estrago também em Asgard e Vanaheim. E nos dois mundos, ele encontrará adversários de peso.

God of War - destacada
Kratos e Atreus enfrentando uma gigantesca criatura nórdica.

Em Vanaheim, as divindades são mais “boazinhas”. Njord, deus dos Mares e dos Ventos, e seus filhos, Freya, a deusa do amor, e de Freyr, deus da prosperidade e fertilidade, são os principais deuses do clã Vanir, que chegou a guerrear com os Aesir, de Asgard, porém tudo se resolveu e hoje eles vivem em paz.

E esta característica da mitologia nórdica de ter dois clãs de deuses é algo que pode fazer total sentido em um enredo com a chegada de Kratos. Eles podem tanto se unir contra ele, como também um dos grupos se aliar ao guerreiro espartano por algum motivo – e originar, assim, uma nova guerra divina.

Independente do que acontecerá, os deuses de Asgard devem aparecer e, se Deus (Odin) quiser, gerar batalhas tão épicas quanto as de Kratos contra os gregos. Já que falamos de Odin, vamos começar com ele. Afinal, ele é “o Zeus da Mitologia Nórdica”. A divindade de maior poder e mais cultuada.

Odin morava no palácio de Valaskjálf, em Asgard, e vivia em seu trono, o Hliðskjálf, onde, graças a seus corvos Hugin e Munin, observava tudo o que acontecia nos nove mundos. Tinha uma famosa lança, chamada Gungnir, e um cavalo de oito patas chamado Sleipnir. Foi pai de vários dos deuses Aesir, como Thor, Baldr, Vidar e Váli.

Odin no trono Hliðskjálf.
Odin no trono Hliðskjálf.

 

Como deus da guerra, era encarregado de enviar suas “filhas”, as valquírias, para recolher os corpos dos heróis mortos em combate. Os mais valorosos guerreiros eram os einherjar, que se sentam a seu lado no Valhalla – majestoso e enorme salão com 504 portas, de onde ele presidia os banquetes.

Dentre Aesir e Vanir, há 24 deuses na mitologia nórdica. Não deveremos ver todos eles em destaque no novo God of War, mas há alguns que parecem ser presença certa. O famoso Thor, por exemplo, não pode ficar de fora da aventura. Deus dos trovões e batalhas, usa o martelo Mjolnir, e tem o cinto Megingjord, que lhe confere enormes forças.

Loki, deus das trapaças, tem grande senso de estratégia e é um misto de gigante e deus. Ele aparece em muitas lendas da mitologia nórdica, com feitos curiosos, como recuperar o martelo de Thor (que havia sido roubado por gigantes), coletar os cabelos de ouro de Sif (após cortar os reais) e obter o navio mágico de Freyr.

Esposa de Odin e madrasta de Thor, Frigga é a deusa da fertilidade, do amor e da união para os Aesir. É a Deusa-Mãe dessa dinastia, e por isso, a protetora da família, das mães e das donas-de-casa, e símbolo da doçura. É a única, além do próprio Odin, que pode sentar-se no Hlidskjalf para observar os Nove Mundos.

Heimdall, guardião da Ponte Bifrost, é outra presença quase certa se você tentar pensar no que pode ser desenvolvido como enredo de God of War. Afinal, provavelmente, vamos ver Kratos saindo “da terra” e indo “para o céu” na mitologia nórdica. E ele só poderá fazer isso com a autorização, ou a morte, de Heimdall.

Forsetes, o deus da justiça, Hell, governadora do mundo dos mortos, Hoder, deus cego da escuridão e do inverno, Iduna, responsável pela imortalidade dos deuses e Vidar, deus da vingança, são outros exemplos de divindades escandinavas que poderão ter presença de destaque neste “reboot” da série.

Ragnarök

Não, Ragnarök não é só aquele MMORPG famoso nos computadores. Aliás, o game tem esse nome justamente por causa da mitologia nórdica. O Ragnarök parece um pouco com aquele conceito de Juízo Final, ou de Apocalipse, da Bíblia. Ele é o fim de quase tudo – e todos – que falamos acima, porém também um novo começo.

O “Edda em prosa”, de Snorri Sturluson, é quem mais descreve a lenda dessa sangrenta batalha. E, pelo tipo de confronto e do poder dos envolvidos, é bem provável que ela seja retratada no novo God of War. Não sabemos se Kratos irá participar dela ou terá influência direta em algo, mas é uma história que tem tudo a ver com ele.

Representação do Ragnarök.
Representação do Ragnarök.

O capítulo 51 do texto Gylfaginning é quem mais detalha o evento – incluindo citações do Völuspá, poema que referenciamos aqui ao contar a história da criação do universo para a mitologia nórdica. De acordo com a lenda, o primeiro sinal do Ragnarök será o Fimbulvetr – três invernos chegarão sem um verão, tornando o sol algo “inútil”.

Durante este tempo, a ganância fará com que irmãos matem irmãos, e pais e filhos sofram com o colapso das famílias. Até que o lobo Hati irá engolir a lua, e seu irmão, Skoll, o sol. As estrelas vão desaparecer. A terra irá tremer tanto que as árvores irão se soltar do solo, as montanhas irão cair e todos os apoios irão se quebrar.

Com isso, monstruoso lobo Fenrir, pai de Hati e Skoll, será solto. A grande serpente das águas de Midgard, Jörmundgander, filha de Loki, irá estremecer a terra, e inchar o mar violentamente. Um jötunn nomeado Hrym aparecerá navegando no barco Naglfar, feito a partir das unhas humanas dos mortos.

Mitologia Nórdica_GoW
Fenrir, pai de Hati e Skoll.

É como uma revolta dos “mundos inferiores” contra os deuses. Fenrir, de olhos e narinas vaporizando chamas, avança com sua boca aberta, sua mandíbula superior atingindo os céus, sua mandíbula inferior tocando a terra. Jörmungandr borrifa veneno no ar e no mar. Então, o céu se divide em dois.

Surtr, gigante de fogo comandante do Musphelhein, lidera “seus filhos” em uma cavalgada através da ponte Bifrost, que se quebra com tamanha força. Desesperado, Heimdallr, que é o guardião do arco-íris, levanta-se e sopra o Gjallarhorn (alô, fãs de Destiny) com toda a sua força. É como uma trombeta para acordar os Deuses em Asgard.

Enquanto os vilões do fogo avançam para o campo de Vígríðr, onde Fenrir, Jörmungandr, Loki e Hrym se juntam a eles, os Aesir despertam. Odin convoca os Einherjar, cavalga até Mímisbrunnr por conselhos de Mímir, deus da sabedoria. A “Árvore do Poder”, Yggdrasil, treme tanto que todos, em cada lugar, se amedrontam.

Odin, usando um capacete de ouro e uma complexa cota de malha, carrega sua Gungnir e avança contra Fenrir, mas é engolido. Thor, que caminhava ao lado, enfrenta Jörmungandr, derrota-a, mas acaba envenenado e também morre. Freyr luta com Surtr, mas cai porque lhe falta a espada, que ele uma vez deu ao mensageiro Skirnir.

O cão de caça Garm, considerado o “pior dos monstros”, combate o deus Týr, resultando na morte de ambos. Loki e Heimdallr também matam um ao outro em batalha. E mesmo com Vidar, filho de Odin, vingando seu pai e matando Fenrir, Surtr alcança seu objetivo: cobre a terra em fogo, fazendo o mundo inteiro queimar.

Kratos e Atreus vão enfrentar criaturas gigantes.
Kratos e Atreus vão enfrentar criaturas gigantes.

Parece o fim, mas não é. Enquanto a confusão rolava, Nidhöggr, aquele dragão que vivia entre as raízes da Yggdrasil, rói a base da árvore sagrada e a faz cair. Isso gera tremores na terra. Surt, por conta disso, é tomado pelas próprias chamas e morre. Mas há algumas divindades sobreviventes depois disso tudo.

No final da batalha, Modi e Magni, filhos de Thor, que recebem o martelo Mjöllnir após a morte do pai, Vidar, filho de Odin que matou Fenrir, são alguns dos sobreviventes. Aegir, Vali, Hoenir, Vili, Hermodr, Forseti e Ull também ficam de pé. Além deles, da madeira de Yggdrasil surge um casal humano, Lífprasir e Líf.

Diz a lenda que todos os sobreviventes, deuses ou seres mágicos, vão para mundos bem distantes, e com o surgimento desse casal, inicia-se a Era dos Homens, dando fim à Era dos Deuses na Escandinávia. Algo que parece bastante influenciado pelo cristianismo, a religião que dominou a região entre os séculos VIII e XII.

Referências

Claro que isso aqui foi um resumão para situar nossos amigos leitores do Meu PS4, porém há muitas referências sobre a mitologia nórdica por aí. Sobre os vikings, claro, são os mais famosos, como o seriado Vikings. Há os filmes Thor e Thor: Ragnarok, da Marvel. Além de “A Lenda de Beowulf”“O Senhor dos Anéis” e “Como Treinar Seu Dragão”.

Thor, da Marvel.
Thor, da Marvel.

Em todos eles, há referências aos deuses nórdicos, seus costumes e à mitologia em geral; especialmente nos de Thor. Também existem bons livros sobre o tema, como o “Mitologia Nórdica”, de Neil Gaiman, publicado pela Intrinseca e ainda “As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica”, de Carmen Seganfredo e A.S. Franchini, publicado pela Artes e Ofícios.

Vários sites na Internet têm resumos bacanas sobre as crenças escandinavas, como por exemplo, Brasil Escola, Mundo Educação e Info Escola. A Revista Galileu também tem o universo dessa mitologia bem explicadinho, de forma simples, e claro, a Wikipédia é uma outra fonte interessante de conteúdo.

Vale a pena dar uma conferida em alguns desses conteúdos para entender melhor tudo o que o novo God of War pode explorar. E mesmo que, por acaso, Kratos não conheça todo esse universo em sua nova jornada, é um aprendizado de conhecimentos gerais bem legal de se ter.