Não é só você que está ansioso pelo novo God of War, jovem espartano. Até o nosso “Kratos brasileiro” não vê a hora de colocar as mãos no game. É claro que estamos falando de Ricardo Juarez, dublador que fez a voz do Deus da Guerra em God of War Ascension e PlayStation All-Stars Battle Royale, e está de volta com o personagem em sua aventura na Mitologia Nórdica. Mas que, apesar disso, ainda não teve o prazer de controlá-lo nesse novo capítulo da saga.

Gamer como todo nós, Ricardo bateu um longo papo, via Skype, com o Meu PS4, e não escondeu sua ansiedade para ver o casamento do seu trabalho com o que a Sony Santa Monica preparou. Afinal, um dublador não vê ou joga o game antes do público. O trabalho dele é feito baseando-se em um roteiro – e nas falas que o dublador americano gravou anteriormente. Ou seja, dá para ter uma ideia, claro, mas não toda a experiência do que está por vir.

Ricardo Juarez
Assim como nós, Ricardo está ansioso para experimentar o jogo.

Não joguei o jogo, estou ansioso como vocês para jogar. A gente grava as cenas dos personagens em cima do áudio do dublador americano e do roteiro, e quando o jogo sai, aí que você fala “ah, então era isso que estava acontecendo” – brincou Juarez, que ainda deu diversos detalhes sobre seu trabalho e as impressões que teve sobre o novo God of War.

Para quem não está familiarizado com o mercado de dublagem, Ricardo Juarez é um dos nomes mais procurados do Brasil na área. Tem no currículo personagens de TV e cinema, como o famoso Johnny Bravo, Nick Fury (X-Men: Evolution), Edu (Du, Dudu e Edu) e Melman (Madagascar), além de dublar atores famosos como Will Ferrell, Hellboy, Claude Van Damme e Gerard Butler. Nos games, além de Kratos em God of War, fez Draven e Hecarim, de LoL, Hellboy Injustice 2, Zenyatta de Overwatch e mais.

Infelizmente, por pequenos problemas técnicos, vamos ficar devendo o áudio do papo – o que é uma pena, devido à simpatia e as frases com aquela entonação tradicional do Deus da Guerra. Mas vocês poderão ler tudo o que nosso “Kratos brasileiro” conversou conosco aqui, em mais um capítulo do especial Fantasma de Esparta, que antecede o lançamento de God of War. O jogo será lançado no próximo dia 20 de abril, exclusivamente para PlayStation 4.

“O que era bom, ficou melhor”

Mesmo não jogando, Ricardo Juarez tem acesso a uma peça preciosa do novo game: o roteiro. E ele confessa que, como gamer, ele ficou bem animado com o que leu. Afinal, Juarez não “só” dubla o Kratos, como também gosta, como nós, de controlá-lo.

O roteiro me surpreendeu positivamente. Vai também causar uma surpresa muito boa para todo mundo que jogar. Claro que não posso falar detalhes, mas posso dizer que fiquei muito feliz, até porque eu jogo também, podendo ler algumas coisas bem interessantes. O que era bom ficou melhor – contou.

E um detalhe curioso é que Ricardo não sabia se continuaria interpretando nosso amado Deus da Guerra nessa nova versão. Afinal, não é incomum haver troca de dubladores dos personagens. Especialmente nesse caso, que Kratos deverá ser retratado de forma bem diferente dos últimos jogos.

Quando você faz um personagem e é uma continuação, teoricamente você é chamado aqui no Brasil. Mas não havia nenhuma confirmação oficial. Tinha duas questões aí. Muita gente perguntou se eu continuaria por causa da mudança do dublador americano, e também sobre a idade do Kratos. Ele estava mais velho, então seria preciso uma voz diferente – explicou.

Mesmo assim, ele se preparou para o papel. Procurou uma fonoaudióloga, fez exercícios e ficou pronto para o caso de o telefone tocar.

Assim que o primeiro trailer saiu, sem saber se eu iria fazer o projeto ou não, um ano antes, mais ou menos, comecei uma preparação vocal com uma fono, Luiza Catoira, especialista em dublagem, ela  atende vários profissionais da área, e expliquei para ela o que era. O que eu precisava. Comecei a fazer diversos exercícios e apliquei durante as gravações do GoW. Tem uma técnica para deixar a voz mais grave, outra mais grave e envelhecida e outra grave, envelhecida e emotiva em alguns momentos. Dá para ver isso no trailer. Aquela parte que ele está carregando o Atreus nos braços, você não conseguiria imaginar o Kratos batendo na porta, fazendo isso. Foram essas técnicas que usei na hora de gravar. Eu preparava toda a musculatura. Garganta, respiração, para criar um tom de voz adequado ao personagem. Se eu fizer um tom de voz aqui, não vai ficar igual. É completamente diferente gravar no celular do que em um estúdio profissional. É um microfone específico e uma sala milimétricamente preparada para gravar o projeto. O tom é mais pesado, mais para baixo. Ele varia muito. Ao longo do trailer, você percebe isso. Tem momentos emotivos, agressivos, secos, de acordo com o que a cena pede – contou.

Como funciona a dublagem

E quando apareceu a ligação do estúdio no seu telefone, ele já estava com tudo nos trinques para voltar a interpretar o Deus da Guerra. Como é esse processo? Quem entra em contato? Como você recebe a notícia que vai dublar alguém em um jogo? Ricardo explica.

Resumidamente, funciona de uma forma padrão. O estúdio X entra em contato com o cliente sobre a escalação de vozes do projeto. Ficando decidido essa parte, o Estúdio X começa a fazer contato com o elenco de atores de voz explicando que vai gravar um projeto e negocia dia e hora para saber da disponibilidade de cada um, como está a agenda de gravação de cada ator de dublagem.

Depois do convite, vem o trabalho. Juarez revela que há muitos detalhes que, para o público em geral, podem passar despercebidos, mas que são cruciais durante a dublagem. Como as diferenças entre fazer um jogo e um filme, por exemplo.

Quando dublamos pra cinema e tv, sabemos exatamente o que está acontecendo. O dublador está vendo a expressão facial do personagem lá na tela. Se está fazendo esforço por que está levantando algo pesado ou se levou um tiro e está machucado. No jogo, não. É feito dessa forma: a gente escuta o áudio, recebe o roteiro totalmente traduzido, presta atenção na interpretação da voz que você ouviu e faz igual. No mesmo timing, com a mesma intensidade. São muitos detalhes. Intensidade é uma coisa. Intenção é outra. Intenção, por exemplo, em uma frase simples. “Me dá um copo d’água”. Um cara folgado fala de um jeito. O cara que tá super cansado, chegou do trabalho, tá estressado, fala de outro. Ou um que tá pedindo a água e falando baixo porque tem um bebê dormindo se expressa de outra maneira. Eu dei um exemplo simples, mas imagina a variedade de tons e intenções que tenho que dar ao longo do jogo – observou.

No vídeo abaixo, do seu próprio canal, o dublador reforça:

Ricardo é ator e está no ramo desde os anos 90. Segundo ele, essa experiência de interpretação é fundamental para o sucesso na dublagem. Afinal, é tudo bem mais complexo do que simplesmente ler algumas falas.

É um trabalho de interpretação com a voz. Se fosse só para ler sem nenhum tipo de emoção na dose certa, qualquer um faria. E se fosse apenas isso, sem interpretar, qualquer um seria dublador. É um trabalho que exige muito de você, e principalmente de interpretação. No fim de um dia de gravação do God of War, eu estava destruído, por exemplo. Mas como eu tinha feito uma preparação que deixou minha musculatura pronta para isso, pra essa porrada, com um tom de voz pesado, alguns gritos, me senti bem após fazer um repouso vocal de pelo menos 12 horas. No dia seguinte estava novo em folha. Imagine um ator de cinema ou Tv que foi convidado pra fazer um papel em um filme como lutador de boxe. Ele é magro e precisa engordar 20kg só de músculos. É muito comum ver isso nos making offs. Todos os atores gringos que estão nas produções de filmes de heróis da Marvel e DC por exemplo, tem que passar por uma preparação física pesada para estar em forma. Ainda bem que nós não precisamos fazer isso, senão eu estava ferrado(risos). Mas sendo ator de voz, preparei minha musculatura fazendo diversos exercícios diários passados pela minha fono, focando exatamente nessa área.

Uma voz mais envelhecida, mais cansada, que combinasse com personagem no período atual.

A importância da localização

Quando Juarez começou a trabalhar com dublagem, não havia um mercado tão amplo no Brasil para isso. Nos games, então, nem pensar! Mas agora essa já é uma realidade fortíssima para os profissionais do ramo. Bom para eles, e ótimo para os fãs de jogos eletrônicos no país.

Quando comecei a dublar, há mais de 20 anos, estava praticamente começando os primeiros passos disso. Não existia Internet. Discada veio depois. Estou caminhando para os 48 anos, já tenho um tempinho, então não era o mundo que a gente vive hoje. TV a cabo não era como é hoje, começou a surgir no Brasil, mais ou menos, se não estou enganado, 94 e 95, por aí, e com o surgimento disso aumentou, claro, o mercado. Antes era só TV aberta e VHS. Hoje a maioria das coisas que faço são dublagens de TV fechada. Tem um que fiz, Ugly Delicious, que está no Netflix. Tipo documentário. Tem a voz em inglês no fundo e fica sem aquele sincronismo com a boca, proposital. E agora há alguns anos começou essa parte de games. Vem crescendo. Aumentou bastante o trabalho para algumas pessoas.

Mas não é todo mundo que entra nessa que entende de jogos. O que fazer nesse caso? Juarez acredita que é importante pelo menos ter uma noção, nem que seja de um briefing passado pela direção, sobre tudo o que o personagem envolverá – porém, o fundamental mesmo é fazer um trabalho de qualidade.

Acho importante conhecer um pouco do mercado. Jogo desde os 9, 10 anos de idade, comecei com Atari, e até hoje jogo, tenho meu PS4 aqui. Jogo sempre que possível. Mas por outro lado, existem dubladores muito talentosos que nunca colocaram a mão em um  joystick e que fazem trabalhos sensacionais. Pra mim, o que muda é a emoção, a alegria de estar participando de um projeto. Estou muito feliz por fazer parte dessa fatia nerd do mercado dedicada a games. Sou um profissional realizado nesse sentido. É importante conhecer, o máximo possível de informações sobre o projeto. Essa parte vem da direção de dublagem. As vezes pode ser apresentada uma foto do personagem, alguns detalhes da história, etc. Isso faz toda diferença pro ator de dublagem na hora que está frente a frente com o microfone e o texto. Mas sabemos que temos todos os tipos de dublagens. Não é tudo incrível, perfeito, maravilhoso. Existem vários estúdios profissionais dublagem no Rio e São Paulo alguns tem qualidade, tradição e experiência no ramo outros não se preocupam tanto com isso. O que é uma pena.

Após um loooongo dia de trabalho chegou a hora de relaxar! Quem vem?

Publicado por Ricardo Juarez em Quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Como a postagem acima denuncia, Juarez é gamer!

Apesar de a localização ser positiva para muita gente, ainda existe um pouco de preconceito de certa parte do público com dublagens. Juarez compreende, e se diz acostumado com as críticas. Tem até amigo dele que já falou que vai jogar o God of War legendado…

A experiência de um jogo localizado é muito diferente. Claro que você pode ler legenda, mas a maneira com que você interage, a imersão, a maneira de jogar é diferente. Especialmente com um trabalho bem feito. Não vou ser ingênuo de achar que todo mundo vai gostar, nem Deus agradou todo mundo. Esse é o Deus da Guerra, é outro Deus (risos). Posso citar personagens que já fiz, como Johnny Bravo, o narrador do Digimon, o Draven do LoL, Zenyatta do Overwatch, tive críticas negativas em todos. De uma forma geral, acho que a recepção para o papel do Kratos foi boa. Mas a Internet é assim. Qualquer um que tenha um alcance vai vivenciar esse lado. É super normal. Acharia estranho se não houvessem críticas negativas. Não tem problema nenhum com isso.

Tem pessoas que jogam comigo que não gostam de dublagem. Falam que gostam de mim, mas que não vão jogar o God of War dublado. É a opção de cada um. Enquanto houver educação e respeito não existem problemas. Mas independente de ser dublado em português ou no original, joguem o novo God Of War porque tá sensacional! – completou.

Far Cry 5

Como dublador de ponta, é claro, Juarez não foi requisitado só para um grande lançamento do mercado de games do ano. Além de Kratos em God of War, ele também participará de Far Cry 5.

Está confirmado que vou estar no Far Cry. Não posso falar nada além disso. Aliás, falando de Far Cry, saiu um vídeo que tem os extras que vai ter no Season Pass. Não lembro de ter visto um Season Pass tão recheado de conteúdo. Fiquei impressionado! – afirmou.

Será que vem mais trabalho bacana para Juarez por aí? Afinal, 2018 é um ano recheado de títulos muito aguardados. Isso nós não sabemos, mas a certeza é que os próximos meses vão ser de muita ação para os gamers.

Esse ano de 2018 está começando com tudo. Far Cry daqui a pouco, God of War, a E3 que no meio do caminho pode trazer uma novidade – e muita gente até me pergunta bastante sobre o que vai acontecer, mas eu não sei. Quer ver um exemplo? Quando saiu o trailer dublado do God of War, eu estava com o celular na mão, ele piscou avisando e aí foi que eu vi. Fiquei meio sem ar na hora e cliquei para assistir. Ansioso pra ver o resultado!

Eu nem sabia que iria sair naquela data. Por exemplo, eu falei da E3, eu costumo assistir numa party, e foi o que aconteceu quando anunciaram God of War. Na hora, eu brinquei, fiz a voz do Kratos, mas a gente não tem nenhuma informação privilegiada de projetos futuros. Tudo o que sei, leio na Internet. Será um ano espetacular. Agora já estão começando a me perguntar do trailer, dos motivos das coisas acontecerem, e eu falo que não sei. A única coisa que eu sei é que até abril vou receber a minha réplica do que chamo carinhosamente do Lê Lê(Leviantan), o machado do Kratos (risos).

E para finalizar, claro, aquele recado do “Kratos Brasileiro” para vocês.

Galera do Meu PS4, um abração para vocês, jovens espartanos!

Não se esqueça: God of War sai no dia 20 de abril, e até lá você pode conferir as matérias do especial Fantasma de Esparta aqui no Meu PS4.