Jogamos! Resident Evil 2 resgata a série com uma proposta assustadora

Capcom modernizou o jogo de 1998 sem perder a essência do original.

Resident Evil 2

A Capcom anunciou que faria o remake de Resident Evil 2 com o lema “We Do It!”, algo como “nós faremos!”. Depois de jogar a demo do jogo ontem, durante o WB Games Summit, é possível dizer com toda a certeza que “They DID it”.

A desenvolvedora conseguiu realizar o que parecia uma tarefa muito difícil. Fazer o remake apostando na nostalgia significava atender aos pedidos de muita gente, mas também era um risco enorme. Resident Evil 2 é um jogo de 20 anos e um título extremamente querido, com mecânicas muito diferentes das observadas na maioria dos jogos atuais. Modernizar um clássico é algo que deve ser feito com extremo cuidado e respeito ao material original, e foi possível observar isso em cada detalhe da demo.

A demonstração permitia explorar a delegacia de polícia de Raccoon City com o policial novato Leon S. Kennedy por 20 minutos ou até alcançar um determinado ponto da história.

Impacto visual imediato

A primeira coisa que chama atenção em Resident Evil 2 é a qualidade gráfica e visual. Parece bastante simplista dizer isso, mas o jogo está lindíssimo. O sentimento de ver uma versão tão bonita do jogo original remete ao encanto com a estética impecável do remake do primeiro Resident Evil. Nós testamos o jogo em televisões 4K e em um PS4 Pro e podemos dizer que, certamente, a RE Engine (o motor gráfico proprietário da Capcom) está em sua melhor forma.

Os personagens de maior destaque do trecho que jogamos (Leon e Marvin) tem visuais e animações extremamente realistas. Os modelos foram muito bem escolhidos para torná-los familiares aos olhos do jogador.

O capricho não está só nos personagens. Os zumbis também são bastante variados, realistas e cheios de detalhes que os tornam únicos (não encontramos nenhum modelo repetido em 20 minutos de testes). Além dos policiais, também existem civis infectados dentro da delegacia e alguns modelos remetem a zumbis conhecidos do jogo clássico. Para quem jogou o jogo de 98 exaustivamente, é muito legal o sentimento de “olha só, eu me lembro deste zumbi”.

Por falar em zumbis, eles são “responsivos” ao dano causado pelos tiros. Cada local em que Leon atira produz um efeito diferente; seja um jato de sangue, um pedaço de cérebro que voa pelos ares, um buraco na barriga…Um belo exemplo foi a acompanhar a mão de um zumbi ser decepada com tiro certeiro.

Já um headshot com a shotgun é uma das coisas mais nojentas e gráficas (e recompensadoras) que pode ser experimentada na demo. Aliás, a presença do gore é muito marcante no jogo não somente nos inimigos, mas também nos cenários. As manchas de sangue nas paredes e no chão de delegacia deixam claro que uma verdadeira chacina aconteceu por ali. É bastante intimidador.

Os cenários são construídos de forma inteligente. Cada sala é capaz de evocar um sentimento imediato de nostalgia – vários locais da delegacia são imediatamente reconhecíveis, retirados diretamente do clássico. No entanto, existe sempre alguma coisa nova em cada ambiente. Muitas regiões foram reformuladas ou localizadas em partes diferentes em relação ao original para adicionar um “fator surpresa”.

Ao mesmo tempo em que é possível reconhecer facilmente a R.P.D, é fácil estar perdido em meio a tantos corredores e salas diferentes. Isso é essencial para criar um clima familiar e desconhecido ao mesmo tempo, tornando o jogador inseguro em uma situação de sobrevivência.

Uma nova perspectiva

A Capcom tomou um certo cuidado ao não chamar este novo Resident Evil 2 de “remake”. A ideia é deixar mais claro que não se trata apenas de refazer um jogo, mas também aceitar o desafio de adaptá-lo e modernizá-lo para os dias atuais.

Uma das principais adaptações está na câmera da câmera, que mudou de uma perspectiva de ângulos fixos para a visão acima do ombro, em terceira pessoa. Apesar de esse tipo de visão remeter aos jogos da série mais voltados para a ação, a mecânica foi totalmente adaptada para criar um clima claustrofóbico. Ainda que seja mais fácil mirar, cada tiro conta porque deve ser disparado precisamente para causar o máximo de dano possível (como em um headshot) ou para impedir que Leon seja cercado em locais pequenos por vários zumbis (atirando nas pernas, por exemplo).

A câmera é posicionada bem perto do personagem, especialmente enquanto você está atirando. Isso acaba provocando uma limitação da visão do cenário, assim como acontecia com os jogos antigos e com a perspectiva fixa. O campo visual do jogador também fica bastante reduzido em locais mais escuros, em que o cenário só pode ser observado pelo que é iluminado pela lanterna de Leon.

Todos esses detalhes contribuem para um clima de tensão e estimular a exploração também. Você nunca tem certeza do que irá encontrar em uma sala ou corredor. Pode haver um zumbi caído em um canto mal iluminado, um item importante para avançar no game ou para resolver um puzzle.

Outro ponto valioso da nova câmera é uma espécie de “zoom” que acontece enquanto Leon é agarrado ou mordido. Isso aumenta muito o impacto visual ao ser atacado pelo zumbi. O personagem é deslocado para o canto, enquanto o rosto do inimigo ocupa toda a tela. É possível ver cada detalhe do morto-vivo: os dentes, manchas de sangue, pedaços de carne que foram “arrancados” do rosto, os olhos brancos e vazios… É realmente incrível o capricho e atenção a estes pequenos detalhes visuais; ou como Leon permanece sujo de sangue, arranhado e machucado após ter sido atacado.

Jogabilidade adaptada

A câmera em terceira pessoa, mas com a visão limitada é um fator de peso na jogabilidade. Esta nova perspectiva, no entanto, não torna Resident Evil 2 um jogo de tiro. O game tem uma cadência e um combate bem mais lento do que os jogos de ação. Os zumbis são demorados como de costume, mas estão em espaços pequenos e apertados. Por conta da visão limitada, você acaba se dando conta da presença deles já muito próximos de Leon. (Muitas vezes me vi usando a mesma estratégia do jogo original: ao avistar um zumbi, tomar uma certa distância para que ele seja abatido antes de conseguir morder o personagem).

A demo não nos permitiu ver a R.P.D em sua totalidade, mas certamente a delegacia é um cenário bem grande e várias salas oferecem “algo a fazer”: um puzzle a ser resolvido, um armário para ser destrancado, um cadeado cuja senha está escondida em algum lugar, ou um item que você ainda não sabe muito bem para o que serve. A amplitude dos cenários e a oferta de “tarefas” que o jogo apresenta certamente deixam claro que o backtracking tem força total em Resident Evil 2. Assim com nos jogos clássicos, há muito pouca linearidade e o jogador vai precisar explorar bastante e revisitar locais para poder avançar.

Os puzzles, uma marca da franquia Resident Evil, certamente estão presentes. A demo tem vários cadeados com combinações de letras para serem abertos, um cofre (cuja senha não é 2236, infelizmente) e as famosas portas que são abertas com chaves de naipes de cartas de baralho. Encontramos dois quebra-cabeças familiares, mas que estavam reformulados: as estantes na biblioteca e o da estátua, no saguão de entrada da delegacia.

O manejo do inventário é outro elemento presente. Existem muito mais itens espalhados pelo cenário para serem pegos do que é possível carregar. Não é importante somente encontrar esses itens através da exploração, mas saber a melhor hora de mantê-los com você. Obviamente, os baús também estão de volta e alguns deles estão localizados nas mesmas salas do jogo original.

Com relação à quantidade de recursos, como itens de cura e munição, a demo pareceu ter uma boa oferta para quem tem paciência para explorar cada cantinho. Vale ressaltar que a dificuldade da demonstração parecia um pouco mais baixa do que é esperado para um Resident Evil ou um jogo de survival horror. Zumbis morriam com três tiros de pistola bem dados na cabeça e eram necessárias muitas mordidas para Leon entrar em estado de saúde “danger”. (Pessoalmente, espero que a demo não reflita a dificuldade real do jogo e acredito que tenha sido reduzida para que o público pudesse explorar livremente, sem o risco de ficar morrendo).

Eles fizeram!

Depois de jogar a demo de 20 minutos duas vezes, posso dizer com bastante segurança que a Capcom conseguiu. Depois de flertar com a megalomania da ação desenfreada nos últimos títulos numerados, a desenvolvedora parece ter reencontrado a personalidade de Resident Evil, há tanto tempo perdida.

Apesar de ter trilhado outros caminhos desde o lançamento de Resident Evil 4, a Capcom parece ter feito um longo “dever de casa” desde os “Revelations”, até chegar à “prova final” e mostrar que ainda sabia fazer um bom game de terror com Resident Evil 7. O último game da série, apesar de ter sido criticado pela câmera em primeira pessoa, soube muito bem unir modernidade com elementos clássicos que marcaram a série em seus primeiros anos de vida.

O remake de Resident Evil 2 faz exatamente isso. Não torna só o jogo original visualmente adaptado para a geração atual, mas moderniza e amplia suas mecânicas, sem perder a essência.

Resident Evil 2 chega em 25 de janeiro de 2019. Estamos em contagem regressiva, e você?